Resumo
Introdução: No centro cirúrgico, os determinantes sociais da saúde
influenciam diretamente os
desfechos cirúrgicos, da indicação ao pós-operatório, refletindo desigualdades sociais que exigem
atenção crítica da enfermagem. Objetivo: Refletir à luz de uma revisão narrativa
sobre a influência
dos determinantes sociais da saúde nos desfechos cirúrgicos e suas implicações para a Enfermagem
perioperatória. Síntese do Conteúdo: Trata-se de um ensaio teórico-reflexivo
fundamentado em
revisão narrativa estruturada realizada na base PubMed entre abril e junho de 2025. Foram incluídos
26
artigos. A análise ocorreu por síntese temática integradora, organizada a partir do modelo de
Dahlgren
e Whitehead. Evidenciou-se que a incorporação dos determinantes sociais amplia o escopo da prática
de enfermagem em diferentes níveis. No plano macro, envolve engajamento político-institucional,
participação na formulação de políticas e gestão equitativa de recursos. Nos mesodeterminantes,
destaca-se a avaliação social ampliada, o planejamento assistencial individualizado, a articulação
com redes comunitárias e a educação em saúde culturalmente sensível. Nos microdeterminantes,
incluem-se avaliação clínica individualizada, suporte psicossocial, acolhimento humanizado,
planejamento pós-operatório e uso de tecnologias para continuidade do cuidado. Essa abordagem
fortalece a integralidade e a justiça social no contexto cirúrgico. Conclusões: A
integração dos
determinantes sociais da saúde à prática da Enfermagem no centro cirúrgico fortalece a segurança
do paciente, aprimora a qualidade do cuidado e contribui para a redução de iniquidades em saúde.
Palavras-Chave: Determinantes Sociais da Saúde; Enfermagem
Perioperatória; Assistência
Perioperatória; Equidade em Saúde.
Abstract
Introduction: In the surgical setting, social
determinants of health
directly influence surgical outcomes, from indication to postoperative
recovery, reflecting social inequalities that require critical nursing
attention. Objective: To reflect, in light of a narrative review, on the
influence of social determinants of health on surgical outcomes and
their implications for perioperative Nursing. Content Synthesis: This
is a theoretical-reflective essay grounded in a structured narrative
review conducted in the PubMed database between April and June
2025. Twenty-six articles were included. The analysis was carried
out through an integrative thematic synthesis organized according
to the Dahlgren and Whitehead model. The findings indicate that
incorporating social determinants broadens the scope of nursing
practice across different levels. At the macro level, it involves political
and institutional engagement, participation in policy formulation,
and equitable resource management. Regarding mesodeterminants,
expanded social assessment, individualized care planning, articulation
with community networks, and culturally sensitive health education
stand out. At the micro level, individualized clinical assessment,
psychosocial support, humanized care, postoperative planning, and
the use of technologies to support continuity of care are included. This
approach strengthens comprehensiveness and social justice within
the surgical context. Conclusions: Integrating social determinants
of health into Nursing practice in the surgical setting strengthens
patient safety, improves quality of care, and contributes to reducing
health inequities.
Keywords: Social Determinants of Health; Perioperative
Nursing;
Perioperative Care; Health Equity.
Resumen
Introducción: En el quirófano, los determinantes sociales de
la salud influyen directamente en los
resultados quirúrgicos, desde la indicación hasta el periodo postoperatorio, reflejando
desigualdades
sociales que requieren una atención prioritaria por parte de la enfermería.
Objetivo:
Reflexionar, mediante
una revisión narrativa, sobre la influencia de los determinantes sociales de la salud en los
resultados
quirúrgicos y sus implicaciones para la enfermería perioperatoria. Síntesis de
Contenido:
Este es un
ensayo teórico-reflexivo basado en una revisión narrativa estructurada realizada en la base
de datos
PubMed entre abril y junio de 2025. Se incluyeron veintiséis artículos. El análisis se
realizó mediante una
síntesis temática integradora, organizada según el modelo de Dahlgren y Whitehead. Se
evidenció que la
incorporación de los determinantes sociales amplía el alcance de la práctica de enfermería
en diferentes
niveles. A nivel macro, implica el compromiso político-institucional, la participación en la
formulación de
políticas y la gestión equitativa de los recursos. En cuanto a los determinantes sociales de
la salud, los
aspectos clave incluyen la valoración social ampliada, la planificación de cuidados
individualizados, la
articulación con redes comunitarias y la educación sanitaria culturalmente sensible. Los
determinantes
microeconómicos incluyen la valoración clínica individualizada, el apoyo psicosocial, la
atención
humanizada, la planificación postoperatoria y el uso de tecnologías para la continuidad
asistencial. Este
enfoque fortalece la integralidad y la justicia social en el contexto quirúrgico.
Conclusiones: La integración
de los determinantes sociales de la salud en la práctica de enfermería en el centro
quirúrgico fortalece la
seguridad del paciente, mejora la calidad de la atención y contribuye a reducir las
inequidades en salud.
Palabras Clave: Determinantes Sociales de la Salud;
Enfermería Perioperatoria; Atención Perioperativa;
Equidad en Salud.
Introdução
A saúde humana é produto de múltiplos fatores que transcendem o campo
biológico e se ancoram
em estruturas sociais, econômicas, culturais e ambientais. Os Determinantes Sociais da Saúde
(DSS),
definidos como as condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e
envelhecem,
impactam diretamente nos padrões de adoecimento e recuperação da população1. Sob a
perspectiva
da justiça social em saúde, esses determinantes não constituem apenas variáveis contextuais,
mas
estruturas produtoras de desigualdades sistemáticas que moldam trajetórias terapêuticas e
resultados
clínicos. No contexto hospitalar e, em especial, no centro cirúrgico, a compreensão desses
determinantes
é fundamental para promover um cuidado ético, integral e transformador, centrado na
pessoa2.
Para analisar essa complexa teia de influências, o modelo proposto por
Dahlgren e Whitehead é
amplamente utilizado, ao estratificar os DSS em macrodeterminantes (estruturais, como
políticas
públicas, economia e sistemas de proteção social), mesodeterminantes (intermediários, como
condições
de moradia, ambiente de trabalho, acesso aos serviços e redes de apoio) e microdeterminantes
(fatores
individuais e comportamentais)2. Tal modelo permite compreender que as
desigualdades em saúde
não emergem de fatores isolados, mas de interações dinâmicas entre estruturas sociais e
experiências
individuais. Por isso, esses níveis interagem continuamente, produzindo desigualdades em
saúde que
se refletem diretamente nos desfechos cirúrgicos, desde a indicação até o
pós-operatório3,4.
A literatura médica recente reforça que fatores como renda, tipo de seguro de saúde, nível
educacional,
insegurança alimentar, moradia, contexto comunitário e ambiente físico estão associados a
diferenças
significativas nos prognósticos, tempo de internação, qualidade de vida e incidência de
complicações
após procedimentos cirúrgicos5,6. Estudos apontam ainda, por exemplo, que
a ausência de planos de
saúde privados, baixa renda familiar e a residência em áreas de maior vulnerabilidade social
elevam o
risco de eventos adversos pós-operatórios, como infecções, reinternações e delirium em
idosos5,6. Esses
achados evidenciam que o risco cirúrgico extrapola a dimensão biomédica tradicional,
incorporando
variáveis sociais que operam como condicionantes estruturais do cuidado.
Ademais, a abordagem dos DSS requer uma análise em múltiplas dimensões,
considerando cada
uma dessas nuances apresentadas7. A estratificação dos dados clínicos por
essas camadas e níveis,
conforme recomendado por diretrizes internacionais, permite a identificação de disparidades
e a
formulação de intervenções específicas, como o encaminhamento para serviços sociais, o apoio
de
agentes comunitários de saúde e adaptações no plano de cuidado perioperatório1,7,8.
No entanto,
embora tais recomendações estejam consolidadas na literatura, sua operacionalização no
cotidiano
do centro cirúrgico ainda é incipiente.
No entanto, apesar do reconhecimento da importância dos DSS por profissionais de saúde, sua
documentação sistemática e incorporação nos fluxos assistenciais ainda são insuficientes.
Barreiras
como a falta de protocolos específicos, ausência de capacitação das equipes e escassez de
ferramentas
de triagem dificultam a implementação dessa avaliação no cotidiano clínico9.
Ainda há uma lacuna
considerável entre o que se conhece na literatura científica e o que se realiza na prática
dos serviços,
sobretudo em ambientes hospitalares complexos, como o centro cirúrgico. Essa lacuna revela
não
apenas um problema operacional, mas também um desafio epistemológico e ético, relacionado
à dificuldade de integrar perspectivas críticas sobre desigualdade social ao modelo
tecnicista
predominante na assistência perioperatória.
Neste contexto, a práxis de Enfermagem no centro cirúrgico emerge como elemento central para
integrar o saber técnico-científico ao compromisso ético e político com a equidade em saúde
no âmbito dos DSS. Ao reconhecê-los como parte indissociável do cuidado, o enfermeiro atua
de forma crítica e
propositiva, não apenas executando procedimentos, mas refletindo sobre o sentido de suas
ações e
buscando transformar realidades10,11. Inspirada nas Teorias de Enfermagem
Emancipatória, essa práxis
pressupõe consciência crítica das estruturas de poder que atravessam o cuidado e compromisso
ativo
com a redução de iniquidades. Essa práxis também exige sensibilidade para identificar
vulnerabilidades
ocultas, compromisso com a justiça social e competência para articular intervenções que
transcendam
o biológico, alcançando o ser humano em sua totalidade durante todo o processo
cirúrgico11.
Portanto, compreender e incorporar os DSS à prática clínica no centro
cirúrgico não é apenas uma
recomendação técnica: é um imperativo ético da Enfermagem contemporânea, que se sustenta
em uma práxis voltada à integralidade do cuidado e à transformação das condições de saúde
das
populações; e isso não pode ser desconsiderado no centro cirúrgico. Desse modo, este artigo
tem
como objetivo refletir à luz de uma revisão narrativa sobre a influência dos determinantes
sociais da
saúde nos desfechos cirúrgicos e suas implicações para a Enfermagem Perioperatória.
Síntese de Conteúdo
Este estudo caracteriza-se como um ensaio teórico-reflexivo, fundamentado por
meio de uma
revisão narrativa da literatura, realizada na base PubMed entre abril e junho de 2025. A
opção por
esse delineamento justifica-se pela natureza analítica e interpretativa do objetivo
proposto, que visa
compreender criticamente a interface entre determinantes sociais da saúde e desfechos
cirúrgicos,
com ênfase nas implicações para a práxis da Enfermagem Perioperatória12.
Diferentemente de revisões sistemáticas ou de escopo, a revisão narrativa não
teve como finalidade
a exaustividade ou a mensuração quantitativa de evidências, mas a construção de uma síntese
interpretativa capaz de integrar diferentes abordagens teóricas e empíricas sobre um
determinado
tema13.
O objeto investigado neste estudo consiste em compreender como os DSS impactam nos cuidados
cirúrgicos e na práxis da Enfermagem nesse cenário. Para embasar teoricamente o estudo,
optou-se
pela realização de uma revisão narrativa da literatura, cujo objetivo não é apresentar
exaustivamente
todas as evidências disponíveis, mas construir uma compreensão ampliada e contextualizada do
fenômeno em questão. A revisão foi realizada exclusivamente na base de dados PubMed, por se
tratar de uma plataforma internacional de ampla relevância científica e com forte
representatividade
de estudos nacionais e internacionais, o que permitiu captar um panorama global sobre os
cuidados
cirúrgicos e sua interface com os determinantes sociais da saúde. Essa escolha se justifica
ainda pelo
caráter abrangente e qualificado da base, que contempla periódicos revisados por pares e
indexados
em importantes sistemas de informação em saúde.
Os descritores utilizados para a busca foram: “Social Determinants of
Health”, “Surgical Care”, “Nursing
Practice” e “Health Disparities”, combinados com operadores booleanos (AND/OR) conforme a
estratégia de busca. A pesquisa considerou um recorte de tempo para publicações realizadas
nos
últimos cinco anos. Por se tratar de uma revisão narrativa com caráter reflexivo, não foram
empregados
critérios de rigor metodológico próprios das revisões integrativas, sistemáticas ou de
escopo. O foco
esteve na interpretação crítica e integradora dos achados, buscando compreender as
inter-relações
entre determinantes sociais de saúde, acesso ao cuidado cirúrgico e a atuação da enfermagem
nesse
contexto.
Ainda que o estudo não tenha abordado diretamente a prática de Enfermagem no
contexto
investigado, as reflexões foram conduzidas a partir de uma perspectiva
crítico-interpretativa,
considerando a articulação entre evidências científicas recentes e a experiência
profissional dos
autores no campo cirúrgico12,14.
A análise dos artigos ocorreu em três etapas: leitura integral e extração dos
principais achados
relacionados aos DSS e resultados cirúrgicos; identificação de convergências temáticas; e
organização
dos achados em três dimensões analíticas: macrodeterminantes estruturais, mesodeterminantes
institucionais e microdeterminantes individuais, alinhadas ao referencial de Dahlgren e
Whitehead15.
Foram analisados 26 artigos predominantemente publicados entre 2021 e 2025,
além de referências
teóricas clássicas consideradas essenciais para fundamentação conceitual16-41.
Quanto à caracterização
deles, predominaram delineamentos observacionais retrospectivos e transversais baseados em
bancos
de dados populacionais, além de revisões sistemáticas, revisões narrativas e estudos
qualitativos. A
maioria das pesquisas foi conduzida em países de alta renda, especialmente nos Estados
Unidos
e Europa, abrangendo especialidades como oncologia, cirurgia colorretal, torácica,
ortopédica
e neurocirúrgica. Os principais desfechos analisados envolveram complicações
pós-operatórias,
reinternações, tempo de internação, estágio ao diagnóstico e acesso ao tratamento cirúrgico,
frequentemente associados a indicadores socioeconômicos como renda, tipo de seguro de saúde
e
vulnerabilidade social.
Antes das reflexões interpostas, revisita-se o modelo de Dahlgren e
Whitehead15,que
considera
a categorização dos DSS em camadas interdependentes. A partir desse modelo, o presente
estudo
organizou suas reflexões em três dimensões analíticas principais, correspondentes às
interações entre
estruturas macro, mediações institucionais e condições individuais no contexto cirúrgico Figura 1.
Figura 1. Determinantes sociais da saúde
Nota: Adaptada de Dahlgren e Whitehead -202115
Com base nessa organização analítica e principalmente nas reflexões interpostas, elaborou-se um
esquema gráfico no software Bizagi Modeler, com o objetivo de sintetizar visualmente a articulação
entre os níveis de determinantes e as possibilidades de intervenção da Enfermagem Cirúrgica.
O recurso gráfico não representa resultado empírico, mas instrumento didático-analítico para
sistematizar a síntese temática construída a partir da literatura.
Macrodeterminantes da saúde e a práxis emancipatória da Enfermagem no cuidado
cirúrgico
Os macrodeterminantes da saúde compõem a camada mais abrangente da estrutura proposta
por Dahlgren e Whitehead15, correspondendo a fatores sociais, econômicos,
políticos, culturais
e ambientais que condicionam de forma estrutural as possibilidades de adoecimento, acesso aos
serviços e condições de recuperação das populações. Conforme evidenciado nos estudos analisados,
esses determinantes apresentam associação consistente com diferenças no acesso ao tratamento
cirúrgico, estágio de apresentação de doenças e ocorrência de complicações pós-operatórias. Por
isso,
no âmbito da Enfermagem Cirúrgica, compreender esses determinantes é essencial para identificar
as origens sistêmicas das iniquidades em saúde e para orientar uma práxis crítica que transcenda o
cuidado técnico, promovendo justiça social, equidade e cidadania no ambiente hospitalar.
A partir de uma perspectiva crítica, os macrodeterminantes não são variáveis externas ao cuidado,
mas
sim estruturas que configuram o cotidiano do centro cirúrgico, afetando a organização dos serviços,
o
perfil dos pacientes, a distribuição dos recursos e as possibilidades concretas de atuação das
equipes
de Enfermagem16,17. Eles se manifestam,
por exemplo, nas políticas públicas de financiamento, que
influenciam diretamente a capacidade instalada dos hospitais e a oferta de cirurgias eletivas e de
urgência. No Brasil, apesar do funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS) ser norteado pelos
princípios da universalidade e equidade, por vezes, há falta de recursos suficientes para atender a
alta demanda do sistema, o que gera impacto nos diferentes níveis de assistência, sobretudo quanto
aos serviços de média e alta complexidade. O reflexo desse efeito ocasiona longas filas de espera,
cancelamentos de procedimentos e escassez de insumos essenciais, com especial gravidade nas
regiões mais pobres5,18.
Essa realidade também é resultado de medidas políticas e econômicas, pois a distribuição desigual
dos investimentos públicos, associada a um modelo econômico excludente, resulta em infraestruturas
hospitalares precárias, ausência de salas cirúrgicas adequadas, leitos insuficientes no
pós-operatório
e deficiências no fornecimento de materiais e medicamentos básicos19. A literatura aqui analisada
associa tais condições estruturais a atrasos terapêuticos e maior risco de desfechos adversos em
populações vulnerabilizadas. Essas carências comprometem não apenas a segurança do paciente,
mas também a dignidade do cuidado, que é o aspecto ético e estrutural que a enfermagem não pode
ignorar.
Ademais, o modelo socioeconômico vigente, marcado pela concentração de renda, informalidade
no trabalho e desigualdade racial e territorial, impõe barreiras substanciais ao acesso cirúrgico. A
condição socioeconômica dos usuários influencia sua capacidade de realizar exames pré-operatórios,
comparecer às consultas, manter acompanhamento pós-cirúrgico e aderir ao tratamento, evidência
clara de como os macrodeterminantes atravessam e condicionam trajetórias terapêuticas20. Esses
achados reforçam que o risco cirúrgico não se restringe à condição clínica individual, mas está
inserido
em contextos estruturais que modulam a experiência do cuidado.
Nesse cenário, o papel da Enfermagem Cirúrgica é duplo, se pode assim dizer: cuidar e
transformar.
Ao mesmo tempo em que participa diretamente dos processos assistenciais, o enfermeiro precisa
atuar como agente político, articulando conhecimento técnico e compromisso ético com a realidade
social dos pacientes cirúrgicos. O reconhecimento dos efeitos dos macrodeterminantes, como o
racismo estrutural, as desigualdades territoriais, a violência institucional e a exclusão de
populações
específicas, por exemplo, permite ampliar a análise dos fenômenos clínicos e reinterpretar eventos
como atrasos, complicações ou abandonos terapêuticos não como falhas individuais, mas como
expressões de iniquidades sociais historicamente construídas3,21.
A práxis emancipatória da Enfermagem configura-se como possibilidade analítica e
prática diante
dessas estruturas. O que poderia ser inspirada em Peart e MacKinnon10, bem como em Velasco
e Reed11,
essa práxis pressupõe consciência crítica, compromisso ético e ação transformadora
frente às estruturas de dominação. No centro cirúrgico, isso significa romper com a naturalização
das desigualdades, denunciar as injustiças que afetam os pacientes mais vulneráveis e construir,
coletivamente, estratégias de cuidado que integrem os determinantes sociais à assistência cotidiana.
Essa compreensão amplia as possibilidades de atuação da enfermagem diante dessa
camada social em
três dimensões fundamentais:
-
Engajamento político da enfermagem nos processos institucionais: enfermeiros em posições
de liderança podem e devem se engajar na defesa de melhorias estruturais nos centros
cirúrgicos, desde a ampliação de equipes até a aquisição de tecnologias, se utilizando de dados
epidemiológicos e indicadores sociais para justificar a alocação equitativa de recursos9. O
exercício desse engajamento ativo transforma o enfermeiro em protagonista da gestão hospitalar
com foco na justiça distributiva, o que se pode chamar de equidade.
- Participação em espaços de formulação de políticas
públicas: a atuação nos conselhos de saúde
e fóruns deliberativos permite que a enfermagem contribua para a construção de políticas que
ampliem o acesso cirúrgico em populações historicamente marginalizadas, como comunidades
quilombolas, indígenas e pessoas em situação de rua22. Essa participação fortalece a função
social
da Enfermagem e sua capacidade de incidir nas causas estruturais da desigualdade.
- Gestão equitativa e crítica dos recursos
assistenciais: ao planejar agendas cirúrgicas, organizar
fluxos e supervisionar o cuidado, o enfermeiro pode colaborar para garantir que as decisões
administrativas considerem os impactos sobre os grupos mais vulneráveis, contribuindo para a
implementação de protocolos sensíveis ao contexto social, como triagens baseadas em Índices
de Vulnerabilidade Social (IVS) e ferramentas de rastreamento de barreiras de acesso4,23.
Portanto, a análise dos macrodeterminantes da saúde no contexto cirúrgico não é um
exercício teórico
isolado, mas uma exigência concreta da prática clínica comprometida com a equidade e a justiça
social.
A atuação da Enfermagem, nesse sentido, deve ser orientada também por uma compreensão ampliada
da saúde como direito humano, exigindo uma formação profissional crítica, interdisciplinar e
sensível
às dinâmicas sociopolíticas que estruturam o campo da saúde7.
Mesodeterminantes da saúde e suas influências no cuidado cirúrgico
No arcabouço teórico proposto por Dahlgren e Whitehead15, os mesodeterminantes da saúde ocupam a
camada intermediária entre os macros e os microsdeterminantes, englobando os fatores institucionais,
organizacionais, territoriais e comunitários que modulam o impacto dos determinantes estruturais
sobre a experiência concreta dos sujeitos no sistema de saúde. No contexto da Enfermagem Cirúrgica,
esses fatores revelam-se decisivos para a qualidade, a segurança e a continuidade do cuidado,
atuando
como mediadores entre as desigualdades estruturais e os resultados clínicos efetivos3,4.
Diferentemente dos macrodeterminantes, que remetem em suma à organização geral da sociedade,
os mesodeterminantes se expressam nos modos de funcionamento das instituições de saúde,
na lógica de gestão dos serviços, na coesão das redes assistenciais e na capacidade de articulação
entre profissionais e usuários. Tais dimensões influenciam a jornada cirúrgica do paciente desde a
indicação do procedimento até a alta e o seguimento ambulatorial, afetando diretamente a adesão
ao tratamento, os índices de complicações e a equidade no acesso23,24. Ademais, vê-se nos estudos
incluídos nesta revisão que fragilidades na comunicação entre níveis de atenção e ausência de
planejamento transicional contribuem para reinternações evitáveis. Ao refletir sobre essa jornada,
observa-se que a Enfermagem não apenas acompanha o paciente, mas se consolida como alicerce
seguro que sustenta, orienta e humaniza o processo cirúrgico.
Entre os mesodeterminantes mais relevantes para o cuidado cirúrgico estão a
organização dos
fluxos institucionais, a gestão de leitos e salas cirúrgicas, a comunicação entre níveis de atenção,
a
disponibilidade de transporte sanitário, a existência de suporte social comunitário e a integração
das equipes multiprofissionais3. Barreiras como internações canceladas por falta
de exames, altas
hospitalares sem plano de continuidade, ou ausência de avaliação social durante a internação,
refletem deficiências sistêmicas que impactam a segurança e os desfechos cirúrgicos9. Essas situações
foram descritas em diferentes contextos assistenciais, especialmente em serviços com menor
disponibilidade de recursos.
No Brasil, por exemplo, essas barreiras são agravadas pelas desigualdades regionais e pela
fragmentação histórica do SUS. Em áreas com menor densidade de serviços especializados, como
regiões rurais e periferias urbanas, pacientes enfrentam maiores dificuldades de acesso à cirurgia
segura e o pós-operatório é frequentemente negligenciado devido à desconexão entre hospital e
atenção básica25. Essas
lacunas representam mesodeterminantes críticos que ampliam as iniquidades
em saúde entre populações vulnerabilizadas economicamente, por exemplo.
Mais uma vez a Enfermagem cirúrgica, por estar presente em todas as fases do processo assistencial,
ocupa posição estratégica para atuar sobre os mesodeterminantes. O enfermeiro é capaz de identificar
vulnerabilidades sociais não evidentes, realizar intervenções educativas sensíveis à realidade do
paciente, articular redes formais e informais de suporte e mediar o acesso a recursos institucionais
e
comunitários. Isso é possível porque sua atuação exige uma prática reflexiva, sensível às condições
sociais e territoriais, e comprometida com o princípio da equidade no cuidado ao paciente desde a
sua avaliação de saúde inicial22,26. Esse comprometimento merece destaque porque
intervenções
coordenadas e centradas na pessoa estão associadas a melhor adesão terapêutica e menor risco de
descontinuidade do cuidado cirúrgico26,27.
Importa destacar que, para que essa mediação seja eficaz, é necessário que as instituições
reconheçam
o valor da avaliação social no planejamento cirúrgico e promovam estruturas que favoreçam a
intersetorialidade. A ausência de protocolos que integrem aspectos sociais à análise de risco
cirúrgico
ou a desvalorização das ações de cuidado transicional impedem que a Enfermagem atue plenamente
sobre os mesodeterminantes, perpetuando falhas evitáveis na atenção à saúde3,9.
Ainda, a sensibilização cultural e a comunicação acessível são ferramentas essenciais para lidar com
a
diversidade sociocultural dos pacientes cirúrgicos. Adotar uma abordagem centrada na pessoa, que
respeite suas crenças, linguagem, experiências e vínculos territoriais, contribui para o
fortalecimento
do vínculo terapêutico e para o empoderamento do paciente no processo de recuperação24. A
educação em saúde, quando contextualizada e participativa, torna-se um instrumento transformador
que amplia a autonomia e reduz riscos pós-operatórios.
Portanto, a atuação crítica da Enfermagem sobre os mesodeterminantes exige o fortalecimento de
práticas interdisciplinares, o uso de ferramentas de avaliação social integradas ao cuidado clínico
e a construção de redes colaborativas entre serviços de saúde, organizações comunitárias e
estruturas
de apoio social. Essa perspectiva é essencial para garantir que o cuidado cirúrgico vá além da
técnica
e se realize como prática integral, sensível e orientada para a justiça social. Conforme indicado
por
alguns estudos analisados24-28, estratégias institucionais de coordenação do
cuidado e comunicação
intersetorial mostram-se relevantes para mitigar desigualdades no percurso cirúrgico.
Dentre as estratégias de atuação da Enfermagem sobre os mesodeterminantes da saúde no contexto
cirúrgico, podem ser consideradas:
-
Avaliação social ampliada e planejamento individualizado: o enfermeiro deve realizar, no
momento da admissão e durante a internação, uma escuta qualificada que identifique
obstáculos sociais à recuperação, como precariedade habitacional, insegurança alimentar,
ausência de cuidador ou dependência de transporte público. A partir dessa avaliação, é possível
elaborar planos terapêuticos que incluam intervenções complementares, como contato com
assistência social e articulação com a atenção básica3.
-
Articulação comunitária e territorial: fortalecer vínculos com serviços locais de atenção
primária a saúde e de suporte formal ou informal, como unidades básicas de saúde, Centro de
Referência de Assistência Social (CRAS), igrejas e associações, permite à equipe de enfermagem
construir redes de apoio para o paciente cirúrgico, especialmente no pós-alta. Essa integração
reduz a fragmentação da assistência, evita reinternações por abandono terapêutico e promove
o cuidado contínuo em territórios vulnerabilizados22. Entende-se que esse desafio é presente
em todo o território nacional e internacional. O que se pode fazer para mudar essa realidade? É
necessário comunicação intersetorial e interníveis de atenção à saúde. A proposição de reuniões
entre essas esferas do cuidado, fluxos de referência mais ágeis e instrumentos compartilhados
entre os serviços fortalece a integralidade do cuidado9,26. O prontuário eletrônico integrado é
um exemplo prático de ferramenta que possibilita esse compartilhamento e cuidado internível.
- Educação em saúde culturalmente sensível: as
orientações pré e pós-operatórias devem
considerar o contexto sociocultural dos pacientes, sendo comunicadas em linguagem acessível
e adaptadas ao nível de letramento em saúde do paciente. Utilizar recursos visuais, linguagem
simples e envolvimento da família são estratégias que aumentam a compreensão e a adesão
ao plano terapêutico24.
Os mesodeterminantes da saúde, por tanto, constituem uma dimensão vital da prática da Enfermagem
Cirúrgica, exigindo profissionais preparados para compreender as realidades sociais dos pacientes
e atuar de forma proativa na remoção de barreiras institucionais e comunitárias. Incorporar essa
lógica ao cuidado significa não apenas melhorar os resultados clínicos, mas também consolidar a
enfermagem como agente de transformação social no interior dos serviços de saúde.
A praxis dos microdeterminantes na enfermagem cirúrgica
A atuação da Enfermagem Cirúrgica frente aos microdeterminantes da saúde constitui uma
expressão concreta da práxis enquanto ação ética, reflexiva e transformadora. Esses determinantes,
localizados na base do modelo de Dahlgren e Whitehead15, compreendem os fatores individuais e
comportamentais que afetam diretamente o processo saúde-doença, como estilo de vida, nível de
conhecimento, estado emocional, suporte familiar, adesão ao tratamento e práticas de autocuidado.
Em contextos cirúrgicos, tais elementos tornam-se ainda mais relevantes, uma vez que influenciam
tanto a preparação quanto a recuperação do paciente, também impactando diretamente nos
desfechos clínicos e na qualidade da atenção prestada27,28.
Na perspectiva da práxis crítica, o enfermeiro cirúrgico deixa de ser apenas executor de protocolos
técnico-assistenciais para tornar-se sujeito ativo na construção de um cuidado singular e
humanizado.
Isso exige escuta sensível, interpretação ampliada da realidade de cada paciente e capacidade de
promover intervenções que transcendam a clínica tradicional. A ansiedade pré-operatória, por
exemplo, pode interferir significativamente nos níveis de dor percebida, na resposta imunológica e
no processo de cicatrização, exigindo que o enfermeiro adote uma postura acolhedora, pautada no
suporte emocional e em estratégias educativas alinhadas ao perfil sociocultural do paciente29
.
Inúmeros outros microdeterminantes poderiam ser mencionados: como o medo da
anestesia, o
desconhecimento sobre o procedimento ou a ausência de rede de apoio; e, em todos esses casos,
seria imprescindível reafirmar que a enfermagem deve posicionar-se como agente crítico e sensível,
capaz de reconhecer e intervir sobre as dimensões subjetivas e contextuais que atravessam o cuidado
cirúrgico.
Quando se fala que as práticas de cuidado no centro cirúrgico demandam uma abordagem
educativa,
dialógica e culturalmente sensível, se trata de uma práxis que reconhece as particularidades do
paciente e promove sua autonomia. O uso de linguagens acessíveis, recursos visuais e metodologias
participativas é essencial para garantir a compreensão de orientações sobre higiene da ferida
operatória, sinais de alerta, manejo da dor e adesão à terapia medicamentosa, por exemplo10. Essa
dimensão educativa não apenas reduz riscos, mas também fortalece o vínculo terapêutico e o
protagonismo do paciente no cuidado.
A realidade contemporânea mostra que muitos microdeterminantes são atravessados por
vulnerabilidades sociais que não podem ser ignoradas. Fatores como insegurança alimentar,
dificuldade de acesso a medicamentos, ausência de apoio familiar ou condições precárias de moradia
interferem diretamente na adesão ao tratamento e na eficácia da reabilitação pós-cirúrgica. Nesse
sentido, a Enfermagem segue buscando soluções concretas para os desafios enfrentados por cada
paciente, mesmo com recursos, por vezes, limitados30,31. Esses aspectos foram descritos nos estudos
qualitativos e observacionais como barreiras concretas à recuperação cirúrgica, especialmente em
populações vulnerabilizadas.
A incorporação de tecnologias digitais ao cuidado de Enfermagem configura-se como
ferramenta
complementar e estratégica que subsidia o seu trabalho. Aplicativos de monitoramento de sinais
vitais, lembretes de medicação, consultas por telenfermagem e plataformas educativas permitem o
acompanhamento longitudinal do paciente cirúrgico, fortalecendo o autocuidado e reduzindo riscos
de complicações desde o pré-operatório32.
O uso dessas tecnologias pode melhorar a experiência do
paciente e favorecer maior engajamento no processo de recuperação32.
A práxis frente aos microdeterminantes também demanda a articulação com políticas
públicas e
diretrizes assistenciais que valorizem o cuidado centrado na pessoa e a integralidade da atenção.
Programas de atenção primária a saúde são fundamentais para garantir o seguimento póscirúrgico,
sobretudo em regiões de maior vulnerabilidade social33. Entretanto, os próprios estudos
analisados33,34 reconhecem limitações
operacionais na integração entre níveis assistenciais, o que
pode comprometer a continuidade do cuidado.
Estudos apontam que abordagens baseadas na práxis, com ênfase nos microdeterminantes,
resultam
em maior adesão ao tratamento e melhores indicadores de recuperação cirúrgica. Uma pesquisa
demonstrou que pacientes acompanhados por enfermeiros que desenvolveram ações educativas
personalizadas apresentaram menores taxas de reinternação34. Ainda, o suporte psicossocial
contínuo, aliado à atuação intersetorial, contribui significativamente para a melhora clínica de
pacientes submetidos à cirurgia em contextos de alta vulnerabilidade35.
Desse modo, dentre os exemplos práticos da práxis de Enfermagem no cuidado aos microdeterminantes,
destacam-se:
-
Avaliação individualizada e monitoramento rigoroso: ao receber um paciente para cirurgia,
o enfermeiro realiza uma anamnese detalhada focando em comorbidades, hábitos de vida,
estado nutricional e suporte familiar. Por exemplo, em pacientes diabéticos, o monitoramento
rigoroso dos níveis glicêmicos e orientações para controle adequado são fundamentais para
prevenir complicações como infecção e atraso na cicatrização36. Esta revisão reforça que a
avaliação individualizada constitui elemento central para prevenção de complicações evitáveis.
- Promoção da educação em saúde personalizada: o
enfermeiro cirúrgico atua orientando o
paciente e seus familiares sobre a importância do abandono do tabagismo, prática regular
de exercícios e alimentação adequada para otimizar a recuperação. A educação em saúde
é adaptada às condições cognitivas e culturais do paciente, buscando promover a mudança
comportamental sustentável37. É necessário incentivar o paciente a
retomar o autocuidado
desde a alta da sala de recuperação pós-anestésica.
- Suporte psicossocial e acolhimento: reconhecendo
que medo e ansiedade podem prejudicar
recuperação, o enfermeiro estabelece ambiente de confiança e utiliza escuta ativa para
minimizar tais sentimentos38,39. Intervenções psicossociais estruturadas
demonstram impacto
positivo na experiência do paciente e na adesão ao cuidado.
- Planejamento e gestão do cuidado pós-operatório: a
práxis da Enfermagem também se
concretiza na coordenação do cuidado de forma individualizada e responsiva às necessidades
clínicas, sociais e emocionais do paciente. Isso envolve, por exemplo, a mobilização precoce em
indivíduos com risco aumentado de trombose venosa profunda ou a orientação rigorosa para
cuidados com feridas em pacientes imunossuprimidos40. Estes exemplos ilustram a importância
de uma gestão de cuidado fundamentada no raciocínio clínico e crítico da enfermagem, que
articula ciência, julgamento profissional e sensibilidade contextual para fortalecer a
segurança,
efetividade e equidade no processo de recuperação cirúrgica.
- Uso de tecnologias de apoio: ferramentas digitais
para acompanhamento remoto e educação
em saúde, como aplicativos de monitoramento de sinais vitais ou lembretes de medicação,
conforme apontado, podem ser utilizadas para reforçar o autocuidado, especialmente em
pacientes com limitações de acesso ao serviço de saúde41.
Os microdeterminantes da saúde, portanto, representam dimensão relevante da prática da
Enfermagem Cirúrgica. Sua incorporação sistemática ao cuidado contribui para qualificação
da assistência, maior segurança do paciente e redução de complicações evitáveis no contexto
perioperatório.
Aplicação da práxis da enfermagem cirúrgica diante dos DSS
A práxis da Enfermagem Cirúrgica, ao considerar os diferentes níveis dos determinantes sociais da
saúde, concretiza-se em ações interligadas que abrangem desde a atuação política e institucional
até o cuidado individualizado e humanizado. A Tabela 1,
apresenta uma sistematização analítica
construída a partir da literatura revisada e da interpretação crítico-reflexiva dos autores,
evidenciando
como a enfermagem pode operacionalizar sua prática reflexiva em cada dimensão determinante,
promovendo um cuidado cirúrgico mais equitativo, eficaz e centrado no paciente.
Tabela 1. Práxis de Enfermagem nos macro, meso e microdeterminantes da saúde no
contexto
cirúrgico
X
Tabela 1. Práxis de Enfermagem nos macro, meso e microdeterminantes da
saúde no contexto
cirúrgico
Nível dos
determinantes
|
Práxis de enfermagem
|
Resultados esperados
|
|
Macrodeterminantes
|
Participar de conselhos para defender políticas de saúde
equitativas.
|
Melhorar o acesso e a equidade nos serviços cirúrgicos.
|
|
Propor protocolos que otimizem o uso dos recursos
hospitalares.
|
Reduzir tempos de espera em filas e fortalecer a
segurança no atendimento.
|
|
Capacitar equipes em justiça social e determinantes
sociais.
|
Ampliar consciência e sensibilidade da equipe
multiprofissional.
|
|
Mesodeterminantes
|
Avaliar condições sociais e rede de apoio na admissão
hospitalar.
|
Identificar barreiras sociais e facilitar o cuidado
integral.
|
|
Articular serviços de suporte (assistência social,
transporte
solidário).
|
Garantir continuidade do cuidado e acessibilidade.
|
|
Desenvolver educação em saúde culturalmente adequada.
|
Facilitar compreensão e adesão ao tratamento.
|
|
Envolver familiares no processo de cuidado.
|
Fortalecer suporte emocional e prático para o paciente.
|
|
Microdeterminantes
|
Avaliar hábitos de vida, saúde mental e nível de
conhecimento do paciente.
|
Personalizar o cuidado e identificar riscos.
|
|
Realizar intervenções educativas individualizadas sobre
autocuidado.
|
Promover autonomia e segurança no manejo pósoperatório.
|
|
Oferecer suporte emocional e encaminhamento
psicológico.
|
Reduzir ansiedade e melhorar bem-estar.
|
|
Realizar acompanhamento pós-alta (quando disponível)
por contato telefônico ou estratégias de seguimento.
|
Identificar precocemente complicações e reforçar adesão.
|
Essa abordagem amplia a compreensão do cuidado cirúrgico ao integrar
dimensões estruturais,
institucionais e individuais ao processo assistencial, conforme discutido nos estudos
analisados,
reforçando o compromisso ético e social da profissão com a equidade em saúde. Ademais, com
base
na síntese temática construída neste ensaio, elaborou-se a Figura 2,
que propõe uma representação
didático-analítica da avaliação dos DSS no contexto perioperatório.
Figura 2. Fluxograma da avaliação dos DSS no contexto perioperatório.
Nota: fluxograma que descreve a avaliação dos DSS no processo perioperatório, o qual
sintetiza o percurso clínico do paciente
cirúrgico desdea comunicação do diagnóstico até a alta hospitalar, evidenciando os pontos
críticos de intervenção da
Enfermagem orientados pelos DSS.
O diagrama organiza-se em sequência lógica e cronológica, iniciando com a
comunicação da
necessidade de cirurgia, momento em que podem ser identificados aspectos relacionados aos
determinantes sociais. Na avaliação pré-operatória, contempla-se a investigação dos macro,
meso e
microdeterminantes, como condições socioeconômicas, acesso à informação e apoio familiar.
Durante
a preparação cirúrgica, podem ser aplicadas intervenções educativas, acolhimento emocional e
identificação de riscos específicos. A entrada na sala cirúrgica e a transição para a Sala
de Recuperação
Pós-Anestésica (SRPA) constituem etapas em que se reforça o monitoramento clínico associado
à atenção
às vulnerabilidades individuais. O fluxograma culmina na alta hospitalar com retorno à
residência,
destacando a relevância de estratégias que considerem os DSS para favorecer continuidade do
cuidado,
adesão ao tratamento e prevenção de complicações.
A Tabela 1 e a Figura
2 sintetizam, portanto, a interpretação analítica desenvolvida neste estudo,
evidenciando o potencial estratégico da enfermagem cirúrgica na incorporação dos DSS ao
cuidado
perioperatório.
Conclusões
Nesse sentido, a literatura analisada evidencia que a Enfermagem desempenha
um papel essencial ao
reconhecer essas particularidades e implementar estratégias personalizadas para cada
paciente, a partir
do reconhecimento e compreensão dos DSS que lhes cercam. A abordagem deve incluir avaliações
holísticas que contemplem não apenas fatores biomédicos, mas também aspectos nutricionais,
adesão
terapêutica, suporte psicossocial, exposição ambiental e medidas preventivas, visando
minimizar riscos
em todo o perioperatório e melhorar a reabilitação após alta para casa ou para outros
setores, a fim de
seguir tratamento complementar.
As práxis de Enfermagem nas diferentes camadas dos determinantes sociais,
conforme discutido ao
longo deste ensaio, mostram-se interdependentes e articuladas, exigindo coordenação entre
níveis
assistenciais e integração entre dimensões clínicas e sociais do cuidado. No contexto
cirúrgico, os
estudos revisados indicam que fatores estruturais, organizacionais e individuais influenciam
o acesso aos
procedimentos, a qualidade da assistência pré e pós-operatória e os desfechos clínicos. O
reconhecimento
desses elementos emerge como condição relevante para o enfrentamento das iniquidades em
saúde no
âmbito perioperatório.
A incorporação sistemática dos determinantes sociais da saúde na prática
assistencial e na elaboração
de protocolos institucionais pode contribuir para maior equidade no cuidado cirúrgico,
especialmente
quando alinhada às realidades locais e às vulnerabilidades específicas das populações
atendidas. Os
achados desta revisão narrativa reforçam que intervenções educativas personalizadas,
coordenação
intersetorial e atenção às condições socioeconômicas estão associadas a melhores indicadores
de
adesão e recuperação pós-operatória.
A compreensão dos DSS, à luz do modelo de Dahlgren e Whitehead, aplicada ao
bloco cirúrgico,
configura-se como referencial analítico útil para qualificar a tomada de decisão clínica,
fortalecer a
segurança do paciente e aprimorar a qualidade da atenção cirúrgica, favorecendo uma prática
mais
integral e sensível às desigualdades sociais.
Conflitos de interesse: O autor declara que não há conflito
de interesse na elaboração deste manuscrito.
Financiamento: Este trabalho não recebeu apoio financeiro
de nenhuma agência pública, privada ou
organização sem fins lucrativos.
Contribuições dos autores: JEdSMF: Conceitualização;
Pesquisa; Metodologia; Gestão do projeto;
Supervisão; Validação; Visualização; Redação – elaboração do rascunho original; Redação –
revisão e
edição. LRS: Conceitualização; Análise formal; Pesquisa; Metodologia; Validação; Supervisão;
Redação
– revisão e edição. AMSC: Organização de dados; Pesquisa; Captação de recursos; Validação;
Redação
– revisão e edição. FEAAJ: Captação de recursos; Gestão do projeto; Supervisão; Validação;
Redação –
revisão e edição. RBT: Pesquisa; Captação de recursos; Supervisão; Validação; Redação –
revisão e edição.
MBAR: Captação de recursos; Gestão do projeto; Supervisão; Validação; Redação – revisão e
edição.
Referências
-
Fonseca MC, Manso RKG de S, Teixeira RS de O, Moreira MMC, Silva RAR, Pinto
ESG, et al.
A promoção de saúde e os fatores condicionantes e determinantes de saúde e sua
influência
no contexto social – uma reflexão. Contribuciones a las Ciencias Sociales.
2024;17(1):5454-68.
https://doi.org/10.55905/revconv.17n.1-325
-
Campbell JA, Egede LE.
Chapter 3 - Conceptual models and frameworks for addressing
structural inequalities in chronic disease outcomes. In: Structural Inequalities and
Health
Outcomes for Chronic Disease. Academic Press. 2025:33-61.
https://doi.org/10.1016/B978-0-443-23750-8.00007-2
-
Smith BP, Girling I, Hollis RH, Rubyan M, Shao C, Jones B, et
al.
A socioecological qualitative
analysis of barriers to care in colorectal surgery. Surgery.
2023;174(1):36-45.
https://doi.org/10.1016/j.surg.2023.03.009
-
Paro A, Hyer JM, Diaz A, Tsilimigras DI, Pawlik TM.
Profiles in social vulnerability: The
association of social determinants of health with postoperative surgical outcomes.
Surgery.
2021;170(6):1777-84.
https://doi.org/10.1016/j.surg.2021.06.001
-
Arias F, Dufour AB, Jones RN, Alegria M, Fong TG, Inouye
SK.
Social determinants of health
and incident postoperative delirium: Exploring key relationships in the SAGES study.
J Am
Geriatr Soc. 2024;72(2):369-81. https://doi.org/10.1111/jgs.18662
-
Lai V, Wesley DB, Zheng H, Lu J, Graves K, Miller KM, et
al.
Social determinants of health
and quality of life in endocrine surgery patients. J Surg Res.
2023;283:194-204.
https://doi.org/10.1016/j.jss.2022.10.053
-
Perez NP, Ahmad H, Alemayehu H, Newman EA, Reyes-Ferral
C. The impact of social
determinants of health on the overall wellbeing of children: A review for the
pediatric surgeon.
J Pediatr Surg. 2022;57(4):587-97.
https://doi.org/10.1016/j.jpedsurg.2021.10.018
-
White-Williams C, Rossi LP, Bittner VA, Driscoll A, Durant
RW, Granger BB, et al.
Addressing social determinants of health in the care of patients with heart failure:
A scientific
statement from the American Heart Association. Circulation.
2020;141(22):e841-e863.
https://doi.org/10.1161/CIR.0000000000000767
-
Sullivan GA, Gely Y, Palmisano ZM, DeSimone A, Gluth MB, Kuo
LE.
Surgeon understanding
and perceptions of social determinants of health. J Surg Res.
2024;294:73-81.
https://doi.org/10.1016/j.jss.2023.08.050
-
Peart J, MacKinnon K.
Cultivating Praxis Through Chinn and Kramer's Emancipatory Knowing.
ANS Adv Nurs Sci. 2018 Oct-Dec;41(4):351-8. https://doi.org/10.1097/ANS.0000000000000232
-
Velasco RAF, Reed SM.
Nursing, Social Justice, and Health Inequities: A Critical Analysis
of the Theory of Emancipatory Nursing Praxis. ANS Adv Nurs Sci. 2023
Jul-Sep;46(3):249-64.
https://doi.org/10.1097/ANS.0000000000000445
-
Polit DF, Beck CT.
Nursing research: Generating and assessing evidence for nursing practice.
11ª ed. Wolters Kluwer Health; 2020.
-
Ferrari R.
Writing narrative style literature reviews. Med Writ.
2015;24(4):230–235.
https://doi.org/10.1179/2047480615Z.000000000329
-
Cunha MHF, Santos CL.
O paradigma hermenêutico como fundamentação das pesquisas
etnográficas e fenomenológicas. Rev Lat Am Enfermagem. 2020;28:e3320.
https://www.scielo.br/j/rlae/a/SDZTPV7wK3vVRJLSWQjq4qd/
-
Dahlgren G, Whitehead M.
The Dahlgren-Whitehead model of health determinants: 30
years on and still chasing rainbows. Public Health. 2021;199:20-4. https://doi.org/10.1016/j.puhe.2021.08.009
-
Murthy SS, Ortiz A, DuBois T, Sharma A, Fernandez F, Dasari
BVM, et al.
The effect of
social determinants of health on utilization of surgical treatment for
hepatocellular carcinoma
patients. Am J Surg. 2023;225(4):715-23. https://doi.org/10.1016/j.amjsurg.2022.10.011
-
Abdelhack M, Tripathi S, Chen Y, Avidan MS, King CR.
Social vulnerability and surgery
outcomes: A cross-sectional analysis. BMC Public Health. 2024;24(1):1907.
https://doi.org/10.1186/s12889-024-19418-5
-
Syrnioti G, Eden CM, Johnson JA, Calvillo-Ortiz R, Farmer
DL.
Social determinants of
cancer disparities. Ann Surg Oncol. 2023;30(13):8094-104. https://doi.org/10.1245/s10434-023-14200-0
-
Pollak YLE, Lee JY, Khalid SI, Hsiung WR, Nguyen
LL.
Social determinants of health Z-codes
and postoperative outcomes after colorectal surgery: A national population-based
study. Am
J Surg. 2022;224(5):1301-7. https://doi.org/10.1016/j.amjsurg.2022.06.012
-
Shah R, Chan KKW. The impact of socioeconomic status on stage at
presentation, receipt of
diagnostic imaging, receipt of treatment and overall survival in colorectal cancer
patients. Int
J Cancer. 2021;149(5):1031-1043.
https://doi.org/10.1002/ijc.33622
-
Ayaz-Alkaya S.
Social determinants of health influencing the health of patients with a stoma:
A discursive paper. Int Wound J. 2025;22(4):e70384.
https://doi.org/10.1111/iwj.70384
-
Namburi N, Timsina L, Ninad N, Ceppa D, Birdas T.
The impact of social determinants of
health on management of stage I non-small cell lung cancer. Am J Surg.
2022;223(6):1063-6.
https://doi.org/10.1016/j.amjsurg.2021.10.022
-
Yap ZL, Summers SJ, Grant AR, Moseley GL, Karran
EL.
The role of the social determinants
of health in outcomes of surgery for low back pain: A systematic review and
narrative synthesis.
Spine J. 2022;22(5):793-809.
https://doi.org/10.1016/j.spinee.2021.11.013
-
Malapati SH, Edelen MO, Kaur MN, Zeng C, Ortega G, McCleary
NJ, et al.
Social
Determinants of Health Needs and Health-related Quality of Life Among Surgical
Patients: A
Retrospective Analysis of 8512 Patients. Ann Surg. 2024;279(3):443-9.
https://doi.org/10.1097/SLA.0000000000006117
-
Holbert SE, Andersen K, Stone D, Pipkin K, Turcotte J,
Patton C.
Social Determinants of
Health Influence Early Outcomes Following Lumbar Spine Surgery. Ochsner J.
2022;22(4):299-306. https://doi.org/10.31486/toj.22.0066
-
Wood EB, Brown A, Douglas CS, Lawrence J, Wotherspoon Z,
Gollenberg A.
Engaging
Emergency Nurses in Strategies to Address the Social Determinants of Health. J
Emerg Nurs.
2024;50(1):145-52.
https://doi.org/10.1016/j.jen.2023.06.014
-
Phillips J, Richard A, Mayer KM, Shilkaitis M, Fogg LF, Vondracek H.
Integrating the
Social Determinants of Health into Nursing Practice: Nurses' Perspectives. J
Nurs Scholarsh.
2020;52(5):497-505. https://doi.org/10.1111/jnu.12584
-
Vikan M, Haugen AS, Valeberg BT, Bjørnnes AK, Husby VKS,
Deilkås EC, et al.
Patient
safety culture through the lenses of surgical patients: A qualitative study. BMC
Health Serv Res.
2025;25(1):215.
https://doi.org/10.1186/s12913-025-12366-9
-
Pereira L, Figueiredo-Braga M, Carvalho IP.
Preoperative anxiety in ambulatory surgery: The
impact of an empathic patient-centered approach on psychological and clinical
outcomes.
Patient Educ Couns. 2016;99(5):733-8.
https://doi.org/10.1016/j.pec.2015.11.016
-
Jack HE, Arabadjis SD, Sun L, Sullivan EE, Phillips RS.
Impact of Community Health Workers
on Use of Healthcare Services in the United States: A Systematic Review. J Gen
Intern Med.
2017;32(3):325-344.
https://doi.org/10.1007/s11606-016-3922-9
-
Yngman-Uhlin P, Klingvall E, Wilhelmsson M, Jangland E.
Obstacles and opportunities for
achieving good care on the surgical ward: Nurse and surgeon perspectives. J Nurs
Manag.
2016;24(4):492-9.
https://doi.org/10.1111/jonm.12349
-
Bekelis K, Calnan D, Simmons N, MacKenzie TA, Kakoulides G.
Effect of an immersive
preoperative virtual reality experience on patient reported outcomes: A randomized
controlled
trial. Ann Surg. 2017;265(6):1068-73.
https://doi.org/10.1097/SLA.0000000000002094
-
Missel M, Beck M, Donsel PO, Petersen RH, Benner P.
Do enhanced recovery after lung
cancer surgery programs risk putting primacy of caring at stake? A qualitative focus
group
study on nurses' perspectives. J Clin Nurs. 2023;32(13-14):4037-48.
https://doi.org/10.1111/jocn.16555
-
Gilligan T, Coyle N, Frankel RM, Berry DL, Bohlke K, Epstein
RM, et al.
Patient-clinician
communication: American Society of Clinical Oncology consensus guideline. J Clin
Oncol.
2017;35(31):3618-32.
https://doi.org/10.1200/JCO.2017.75.2311
-
Griscti O, Aston M, Warner G, Martin-Misener R, McLeod D.
Power and resistance within
the hospital's hierarchical system: The experiences of chronically ill patients.
J Clin Nurs.
2017;26(1-2):238-47.
https://doi.org/10.1111/jocn.13382
-
Rossi M, Fornia L, Puglisi G, Leonetti A, Zuccon G, Fava E,
et al.
Assessment of the praxis
circuit in glioma surgery to reduce the incidence of postoperative and long-term
apraxia: A new
intraoperative test. J Neurosurg. 2019;130(1):17-27.
https://doi.org/10.3171/2017.7.JNS17357
-
Cho HE, Huynh KA, Corriere MA, Chung KC, Cederna PS.
Developing Strategies for Targeted
Improvement of Perioperative Education for Postbariatric Surgery Body-Contouring
Patients.
Annals of Plastic Surgery. 2021;86(4):463-468.
https://doi.org/10.1097/SAP.0000000000002471
-
Hanssen I, Smith Jacobsen IL, Skråmm SH.
Non-technical skills in operating room nursing:
Ethical aspects. Nurs Ethics. 2020;27(5):1364-72.
https://doi.org/10.1177/0969733020914376
-
Rydenfält C, Johansson G, Larsson PA, Åkerman K, Odenrick P.
Social structures in
the operating theatre: How contradicting rationalities and trust affect work. J
Adv Nurs.
2012;68(4):783–95.
https://doi.org/10.1111/j.1365-2648.2011.05779.x
-
Fuller S, Kumar SR, Roy N, Mahle WT, Romano JC, Nelson JS, et
al.
The American
Association for Thoracic Surgery congenital cardiac surgery working group 2021
consensus
document on a comprehensive perioperative approach to enhanced recovery after
pediatric
cardiac surgery. J Thorac Cardiovasc Surg. 2021;162(3):931-54.
https://doi.org/10.1016/j.jtcvs.2021.04.072
-
Wright JM, Raghavan A, Wright CH, Shammassian B, Duan Y,
Sajatovic M, et al.
Back to
the future: Surgical rehearsal platform technology as a means to improve
surgeon–patient
alliance, patient satisfaction, and resident experience. J Neurosurg.
2021;135(2):384-91.
https://doi.org/10.3171/2020.6.JNS201865
✖
Figura 1. Título de la figura.