Tabela 1. Perfil do Cuidador Informal Participante. n = 10
X
Tabela 1. Perfil do Cuidador Informal Participante. n = 10
| Código |
Género |
Idade
(anos)
|
Estado
Civil
|
Situação
perante o trabalho |
Parentesco
com a pessoa
cuidada
|
| P1 |
Masculino |
47 |
Casado |
Trabalha por
conta de outrem
|
Sogra
|
| P2 |
Feminino |
56 |
Casada |
Trabalha por conta de outrem, de “baixa
médica”
(incapacidade temporária para o
trabalho)
|
Mãe |
| P3 |
Feminino |
56 |
Casada |
Trabalha por conta própria
|
Sogra
|
| P4 |
Feminino |
57 |
Solteira |
Sem trabalho assalariado
|
Mãe |
| P5 |
Masculino |
73 |
Casado |
Reformado
|
Esposa |
| P6 |
Feminino |
80 |
Casada |
Reformada
|
Cônjuge |
| P7 |
Feminino |
57 |
Casada |
Trabalha por conta de outrem
|
Mãe |
| P8 |
Feminino |
54 |
Casada |
Trabalha por conta de outrem
|
Mãe |
| P9 |
Feminino |
56 |
Viúva |
Reformada por invalidez
|
Pai e Mãe |
| P10 |
Feminino |
55 |
Casada |
Trabalha por conta de outrem
|
Sogra
|
P1 a P10 – Código
atribuído a cada participante
No sentido de contextualizar o cuidado e a relação do cuidador com o familiar
que cuida, observa-se
que metade dos cuidadores cuida de progenitores (50,00%), três cuidam da sogra (30,00%), e
dois do
cônjuge (20,00%). Um dos participantes cuida de duas pessoas. A maioria dos cuidadores tem
irmãos,
à exceção do P2, P6 e P7, havendo situações em que os irmãos dos cuidadores estão emigrados
(P4, P9).
Em 90,00% dos casos a pessoa dependente vivia na mesma casa do cuidador, excetuando a
situação do
P3. No caso da P3, a pessoa viveu temporariamente na mesma casa da cuidadora após ter ficado
viúva,
sendo vizinhas. O cuidado é prestado em exclusividade por 60,00% dos participantes
cuidadores (P2,
P3, P4, P5, P6 e P9), sendo partilhado em 40,00% dos casos (P1, P7, P8 e P10),
designadamente com o
cônjuge, irmãos ou outros significativos.
A necessidade da prestação de cuidados informais surge na sequência de
condições agudas (40,00%),
mas a maioria decorre de doenças crónicas (60,00%), tendo-se registado um aumento dos níveis
de
dependência e da necessidade de cuidados ao longo do tempo. Relativamente à duração do
cuidado,
quatro participantes cuidam ou cuidaram do seu familiar mais de 10 anos (P4, P6, P7 e P8),
sendo que
os restantes cuidam há menos de 10 anos, havendo um participante que cuida há menos de um
ano
(P2) e outro há menos de 5 anos (P3).
Quanto ao tempo despendido no cuidado, metade despende a totalidade do seu
tempo no cuidado
informal (P2, P4, P5, P6, P9), referindo que “o meu trabalho é este, 24 horas” (P9). Outros
participantes
prestam cuidados de forma mais repartida como de manhã, à hora de almoço e/ou à noite. Os
participantes P1 e P10 prestavam os cuidados durante a manhã e no período noturno, em
complemento
com uma resposta formal de centro de dia.
Os resultados focam as categorias “Impactes do cuidado no cuidador informal”
e “cuidar numa situação
de doença e/ou incapacidade”.
A categoria impactes do cuidado no cuidador informal
revela impactes a nível familiar, pessoal,
social, laboral e financeiro Tabela 2.
Tabela 2. Impactes multidimensionais no cuidador informal. n = 10
X
Tabela 2. Impactes multidimensionais no cuidador informal. n = 10
Subcategoria
Impacte / Unidade de registo
|
% (n) |
|
A nível Familiar
|
|
|
Dinâmica Familiar
|
20,00 (2)
|
|
Relações Familiares
|
20,00 (2)
|
|
Sem impacte
|
50,00 (5)
|
|
Outros
|
10,00 (1)
|
|
Dificuldade em gerir rotinas e dormir durante a noite
|
20,00 (2)
|
|
A nível pessoal*
|
|
|
Restrição de autonomia para sair de casa ou realizar
atividades
|
70,00 (7)
|
|
Desgaste ou Cansaço
|
60,00 (6)
|
|
Medo de possíveis recidivas da doença
|
10,00 (1)
|
|
A nível Social
|
|
|
Restrição de Liberdade
|
80,00 (8)
|
|
Sem impacte
|
20,00 (2)
|
|
A nível Laboral
|
|
|
Conciliação do trabalho e o cuidado (com adaptações)
|
50,00 (5)
|
|
Despedimento
|
10,00 (1)
|
|
Sem impacte
|
40,00 (4)
|
|
A nível Financeiro
|
|
|
Aumento de despesas
|
50,00 (5)
|
|
Dependentes suportam despesas
|
20,00 (2)
|
|
Sem impacte
|
20.00 (2)
|
|
Outros
|
10,00 (1)
|
Nota. *A variável permitiu respostas múltiplas. Assim, as respostas
múltiplas a cada variável justificam a percentagem total de
respostas ser superior a 100%
Quando questionados sobre os impactes a nível familiar, metade dos cuidadores
não aponta qualquer
impacte. No que diz respeito à dinâmica familiar, os participantes P1 e P7 referem que a
dinâmica fica
afetada:
“A única questão que se calhar mexeu um bocadinho é com as rotinas. Vamos levar
onde, a casa, vais
buscar ao centro de dia, aquela dinâmica até ficar (...), até que sejam
estabelecidas também mexe um
bocadinho com a nossa própria rotina, há uma dinâmica um bocadinho diferente,
envolve muitas
pessoas, disponibilidades. É um dos pequenos desafios” (P1).
“gostava muito dos netos, estava sempre na brincadeira com eles e isso terminou.”
(P7 sobre a mãe
acamada há 15 anos).
São referidos constrangimentos nas relações que se estabelecem entre os
familiares de P3 e P4 que
revelam que o facto de o resto da família não participar na prestação de cuidados tem
impactes na
relação familiar.
“O único apoio que eu pedia era que eles passassem, falassem com ela, ‘tás a ver?
Questionassem,
porque se eles fizessem isso, ao fazer, eles apercebiam-se da evolução que ela
estava a ter da doença,
que era isso que eu tanto batalhei, que ela estava a aumentar” (P3).
“Claro que temos problemas uns com os outros, porque há sempre coisas a fazer e é
tratado. Como sou
eu trato tudo é um bocado complicado” (P4).
Os impactes a nível pessoal foram os mais referidos ao longo das entrevistas.
Seis cuidadores referem impactes como o cansaço ou o desgaste:
“É que quem está a tomar conta de
uma pessoa dessas eu acho que a gente adoece mais rápido que a
própria pessoa.”, “E eu às vezes digo, que Deus nunca mais me faça passar por uma coisa
dessas, porque
quem tem de tomar conta de uma pessoa assim é muito doloroso” (P3).
“É um cansaço permanente, psicológico e depois transforma-se em físico que é todos os
dias, todos os
dias, todos os dias, todos os dias, todos os dias, todos os dias” (P9).
se voltasse a minha casa eu não aguentaria outro mês assim (…) Não dava, não dava para
aguentar
assim, porque o psicológico, já não dava para aguentar” (P10).
Dois participantes indicam a dificuldade em gerir rotinas e dificuldade em dormir durante a
noite:
“Foi naquela fase super complicada em que
ela não dormia uma noite, passava a noite a chamar,
chamava os filhos todos e eu passei basicamente a noite aqui no sofá, não desejo
isto a ninguém, a
ninguém mesmo” (P10).
Em último lugar, é mencionado o receio que se repita o episódio que deu origem à dependência
(P1)
como refere o participante:
“nos primeiros anos sentia-me eu, pelo menos
eu, e ela também [esposa], senti alguma apreensão da
possível repetição [de AVC]” (P1).
Quanto aos impactes a nível social, os P2 e P9 não apontam nenhum impacte a
este nível. Os restantes
cuidadores (80,00%) mencionam algum impacte e estratégias usadas para ultrapassarem
eventuais
obstáculos. São mencionadas restrições a nível da liberdade e autonomia por oito
participantes para
sair de casa ou para realizar atividades profissionais, de lazer ou outras:
“Restrições, constrangimentos,
limitações, porque a gente, o simples facto de ao dia de semana, por
exemplo, a gente ter a liberdade de hoje não vamos jantar em casa, vamos jantar fora
de casa, naquele
período de cuidados não o podemos fazer. Temos aquele horário para cumprir, temos
que cuidar, sim” (P1).
“Às vezes nós temos atividades, que eu pertenço à coletividade, e às vezes assim eu
não posso ao sábado
de manhã” (P7).
“É assim, a gente está mais presa em casa” (P8).
“Claro, tira-me a autonomia a mim. Estou mais preso a ela, não posso sair, por
vezes, uma pessoa tem
receio que ela faça alguma asneira porque já não é a primeira vez que ameaça (choro)
(...) mesmo lá em
baixo quando saio, tenho de lhe deixar uma nota escrita, fui buscar pão, fui ali. E
mesmo assim, às vezes,
com isso à frente dos olhos, é um problema. Levanta problemas em tudo”
(P5).
“não vou de férias, eu não posso, tenho essas tarefas, temos essas partes em que nós
abdicamos de tudo
para estar sempre todos os dias, ou uma ou a outra [irmã]” (P8).
“sabíamos que no mês que ela cá estava não fazias grande coisa, não é? Tipo irmos
ali abaixo tomar
café. Alguém tinha de ficar assim com ela” (P10).
Algumas estratégias mencionadas pelos cuidadores para ultrapassar os
constrangimentos referidos
são o adiamento de eventos (P1), a ausência de um dos cuidadores em algum evento/compromisso
para ficar com o dependente (P1, P3, P7 e P10), deixar a pessoa durante algum tempo sozinha
(P5, P6)
como é referido:
“Um dia talvez ainda era capaz de a
deixar aqui um dia, talvez, mas mais não” (P5).
Outras estratégias mencionadas são a solicitação para alguém supervisionar a
pessoa dependente (P3,
P4) e a utilização de câmaras de videovigilância (P1, P4):
“Eu há pouco tempo comprei uma
videocâmara, quando é poucas vezes, porque também não há muito
dinheiro para ir jantar com amigos ou assim, e levo um auricular no ouvido e tenho a
minha mãe. Vou
vendo ou escutando a ver como é que ela está, mas é uma coisa rara” (P4).
No que diz respeito aos impactes a nível laboral, para alguns cuidadores,
este impacte não se fez sentir
da mesma forma, seja porque já se encontravam numa situação de baixa médica, reforma ou
reforma
por invalidez (P2, P5, P6, P9).
Metade dos cuidadores referem conseguir conciliar o trabalho formal
assalariado e a prestação de
cuidados informais, seja pelo seu horário ser flexível (P3, P7), seja por recorrerem a
algumas adaptações
como o planeamento antecipado das atividades profissionais (P1), a redução do horário de
trabalho, a
mudança de horário rotativo para horário fixo (P8) e pedidos para realizar trocas de horário
com colegas
(P10). Uma das cuidadoras sentiu a necessidade de se despedir assim que a sua mãe foi
operada (P4).
Quanto aos impactes a nível financeiro, metade dos cuidadores relatam o
aumento das despesas, dos
quais P1 e P2 referem que a família consegue suportar:
“É assim, gastos há sempre, embora a
gente costuma dizer que o arroz que dá para dois, dá para três
(...)”, “de uma forma indireta houve um bocado mais gastos, mas nada de excecional
que a gente não
pudesse suportar” (P1).
“Tive mais gastos, porque, olha, a cadeira foi emprestada, mas tive de lhe arranjar
o andarilho e comprar
fraldas. Mas graças a Deus” (P2).
Alguns cuidadores referem que são os próprios dependentes que suportam as
despesas relativas ao
seu cuidado (P7 e P9) como refere uma participante:
“Não, não me afeta nada porque os meus
pais têm independência financeira. Para já” (P9).
Outros referem não sentir mais dificuldades financeiras (P3, P10). Por seu
lado, P8 menciona que, apesar
de receber menos (devido à redução do horário de trabalho), acaba por ter menos despesas
porque
não opta por respostas formais.
A categoria cuidar numa situação de doença ou de
incapacidade
agrega dados sobre o processo
de prestação de cuidados quando os cuidadores tiveram de lidar com uma situação de doença ou
de incapacidade dos cuidadores. Subdivide-se nas subcategorias: 1) doença e/ou incapacidade
do
cuidador; 2) implicações na prestação de cuidados; 3) mobilização de recursos formais e
informais; 4)
desafios enfrentados; 4) estado atual de saúde do cuidador; e 5) perceção relativamente a
cuidar no
futuro.
No que diz respeito à doença ou incapacidade experienciada pelos cuidadores são apontados
tratamentos hospitalares regulares e cirurgias, sobretudo. A duração do período de incapacidade
ou
indisponibilidade foi de várias semanas ou meses na maioria das situações. No caso da P4, apesar
da
impossibilidade de fazer esforços, continuou a prestar cuidados imediatamente após a cirurgia.
São
referidas várias implicações na prestação de cuidado, designadamente a necessidade de descanso,
o
afastamento entre o cuidador e a pessoa cuidada e a dificuldade em realizar tarefas
Tabela 3.
Tabela 3. Doença e/ou Incapacidade do Cuidador, Período de Indisponibilidade e
Implicações na
Prestação de Cuidados. n = 10
X
Tabela 3. Doença e/ou Incapacidade do Cuidador, Período de
Indisponibilidade e Implicações na
Prestação de Cuidados. n = 10
|
Código
|
Doença e/ou
incapacidade do
cuidador
|
Período de
indisponibilidade
(duração)
|
Implicações |
|
P1
|
Hérnia
|
3/4 meses de recuperação
|
Cuidador não podia fazer esforços; necessitava de
descanso. “não havia naquele momento a
disponibilidade
para cuidar, para pegar nas mãos da Dona A e levála
para aqui ou para ali, não sei, ajudá-la a descer um
degrau ou a entrar no carro”.
|
|
P2
|
Cancro da Mama
|
Cerca de 1 ano de tratamentos
|
Quando realiza os tratamentos hospitalares oncológicos
fica indisponível; refere o cansaço. “Sim,
cansada,era
cansada, mas tratei dela na mesma”.
|
|
P3
|
Covid-19
|
1 semana indisponível
|
Cuidadora indisponível para prestar cuidados diários.
|
|
P4
|
Cirurgia a quisto sebáceo
|
Imediatamente após cirurgia
|
Cuidadora continuou a prestar cuidados apesar de
proibida de fazer esforços; refere cansaço. “Uma
pessoa
precisa mesmo de descansar, coisa que eu não fiz.
Sentiame
mais cansada, tinha dores de cabeça, estava mais
sonâmbula, mas fiz o trabalho na mesma. Obriguei-me
a isso”.
|
|
P5
|
HUrgência hospitalar por perder
os sentidos. Cancro na próstata
e problemas cardíacos
|
20h nas urgências e durante
tratamentos oncológicos
|
Durante a ida às urgências deixou de poder prestar
cuidados e quando realizava os tratamentos
hospitalares
oncológicos a sua disponibilidade também diminuía
significativamente.
|
|
P6
|
Cirurgia complexa. Cuidadora
com problemas oncológicos.
|
2 dias por semana com
tratamentos hospitalares
durantes vários meses
|
Quando realizou tratamento hospitalares deixa de poder
prestar cuidados informais. “Em 2011 passei mais
tempo
no hospital do que quase em casa”.
|
|
P7
|
Cirurgia a tumor na cabeça
|
Internamento durante 15 dias e
recuperação em casa
|
Cuidadora refere a necessidade de descanso e menciona
que ficou com vertigens e por vezes não conseguia ver
a
claridade, o que criava dificuldades em realizar tarefas
de cuidado.
|
|
P8
|
Cirurgia à mão
|
Baixa médica durante 1 mês,
mas começou a cuidar após 15
dias
|
Cuidadora refere a necessidade de descanso e
dificuldades acrescidas em cuidar durante as primeiras
semanas após a cirurgia.
|
|
P9
|
Cirurgia mamária. (antes:
outras cirurgias e Covid-19)
|
1 semana de internamento
hospitalar
|
Cuidadora refere a necessidade de descanso e a
impossibilidade de fazer esforços na fase inicial de
recuperação em casa.
|
|
P10
|
Cirurgia aos intestinos
|
Recuperação durante várias
semanas
|
Cuidadora refere a necessidade de descanso. Devido
à rotatividade da prestação de cuidados, passados
dois meses a dependente voltou a sua casa. Quando
questionada sobre implicações responde: “Eu acho que
as teve todas”.
|
No que diz respeito à mobilização de recursos formais e informais perante a doença ou
incapacidade
do cuidador, 90,00% dos participantes reforçaram o suporte da rede informal já existente (à
exceção
do P4) e identificaram-se novos pedidos de suporte na rede informal (P3, P6 e P7) e na rede
formal
(P2)
Tabela 4.
Relativamente à rede de apoio para o cuidado, todos os participantes fazem referência a pelo
menos uma pessoa que assegura apoio nos cuidados ou alguém com que podem contar em caso
de necessidade, seja de carácter formal ou informal. Para 60,00% da amostra a rede de apoio para
o cuidado é mista, sendo exclusivamente de carácter informal em 30,00% e de carácter formal
em 10,00% dos casos. A rede de apoio formal mobilizada passa pelo recurso a respostas de apoio
domiciliário (P3, P7), de centro de dia (P1, P10), de cuidadores formais no domicílio (P3, P4),
serviços
de fisioterapia (P6, P9) e serviços da junta de freguesia para atividades seniores (P9).
Tabela 4. Mobilização de Recursos de Apoio Formal e Informal no Período de Doença
ou Incapacidade do Cuidador. n = 10
X
Tabela 4. Mobilização de Recursos de Apoio Formal e Informal no Período
de Doença ou Incapacidade do Cuidador. n = 10
|
Subcategoria
|
Recorreu % (n)
|
Não recorreu %
(n)
|
Reforço do suporte da rede informal existente
|
90,00 (9)
|
10,00 (1)
|
Novos pedidos de suporte na rede informal
|
30,00 (3)
|
70,00 (7)
|
Novos pedidos de suporte na rede formal
|
10,00 (1)
|
90,00 (9)
|
A
Tabela 5 detalha a mobilização do apoio formal e informal, incluindo
recortes das entrevistas que
evidenciam como é que a amostra lidou com os impactes da doença do cuidador não processo de
prestação de cuidados à pessoa dependente. A maioria dos participantes aponta entraves ao
recurso
a serviços formais (80,00%). Foram referidos os elevados custos financeiros (P2, P6, P8),
dificuldades
com a logística quotidiana, preferência por cuidados no próprio domicílio e pelo cuidador
informal
(P4, P7, P9), ou a qualidade percebida dos serviços (P5, P8, P9).
Tabela 5. Mobilização de Recursos Formais e Informais no contexto da Doença ou
Incapacidade
do Cuidador Informal. n = 10
X
Tabela 5. Mobilização de Recursos Formais e Informais no contexto da
Doença ou Incapacidade
do Cuidador Informal. n = 10
|
Código
|
Mobilização de recursos formais e informais
|
|
P1
|
Reforço da rede de suporte informal.
Participante refere que não sentiu necessidade de
mobilizar mais ajuda apesar da sua esposa ter ficado
mais sobrecarregada.
Participante refere que não sentiu necessidade de
mobilizar mais ajuda apesar da sua esposa ter ficado
mais sobrecarregada.
“nas semanas em que ela não estava, eu dava para
descansar e as semanas em que ela estava,
sobrecarregava um bocadinho
mais a Sr. C ela é que fazia tudo”.
Participante menciona a disponibilidade momentânea para
ajudar de vizinhas.
|
|
P2
|
Reforço da rede de suporte informal e novo pedido de
suporte na rede formal
Reforço da ajuda do marido e prima da cuidadora.
Participante refere que quando não podia ficar com a sua
mãe, pedia
à vizinha para cuidar (serviço pago). Houve sugestão
hospitalar de SAD, mas recusado pela cuidadora: “mas
disse que só
podiam cá vir uma vez por semana, fazer a limpeza da
casa, fazer a comida e limpar a casa e tratar dela.
Uma vez por semana
não ia resolver nada, então desisti”.
|
|
P3
|
Reforço da rede de suporte informal e novo pedido de
suporte na rede informal.
A cuidadora deixou de prestar cuidados, pelo que nos
primeiros dias foi substituída pelo seu marido, seguido
de um cunhado,
no entanto devido à falta de disponibilidade devido ao
trabalho, a família optou por deixar a dependente ao
cuidado da sogra
de um dos cunhados. “E para mim o Covid foi a chance
que eu tive de poder sair, eles ficarem com ela e
aperceberem-se do
estado em que ela estava”.
|
|
P4
|
Não houve reforço da rede de suporte ou novo pedido de
suporte formal ou informal.
|
|
P5
|
Reforço da rede de suporte informal.
Quando o cuidador esteve a fazer tratamentos ficou com a
esposa numa residência. Refere ter pedido algum auxílio
dos
profissionais enquanto esteve nas urgências. A filha
esteve uns dias com os seus pais nesse episódio de
urgência. “Sim, quando
estive nas urgências 20 horas pedi lá a essas
senhoras da residência para lhe ir dando uma vista
de olhos, para lhe indicar o
quarto, porque ela, passado 8, 10, 15 dias de ir
para o quarto, não dava bem com a porta.”
|
|
P6
|
Reforço da rede de apoio informal e novo pedido de apoio
informal.
Quando a cuidadora estava a realizar tratamentos
hospitalares a filha do casal realizava as tarefas
relacionadas com o cuidado
e o dependente ia dormir a casa da filha. Em caso de
indisponibilidade da filha, uma senhora ia dormir a casa
do casal para
poder cuidar do dependente. “Caso às vezes a minha
filha viesse de férias, como chegou a vir, era uma
senhora dali da Póvoa
de Sobrinhos que ia lá dormir em minha casa.”
|
|
P7
|
Reforço da rede de apoio informal e novo pedido de apoio
informal.
Durante a recuperação e perante a incapacidade da
cuidadora, quem cuidava era a sua irmã. Por vezes a sua
irmã chegou a
pedir o auxílio de um primo para a prestação de
cuidados.
|
|
P8
|
Reforço da rede de apoio informal
Durante a recuperação, a prestação de cuidados era
realizada pela sua irmã.
|
|
P9
|
Reforço da rede de apoio informal.
Durante a cirurgia e a recuperação a cuidadora deixou de
estar disponível para cuidar e passou a necessitar
também de
cuidados. A sua irmã, filha e mãe prestaram cuidados à
cuidadora e à pessoa dependente. “No início a minha
filha estava cá,
até foi ela que me lavava a roupa, as camisas, que
me ia visitar e levava o que eu precisava, depois
ela foi-se embora e veio a
minha irmã, mas se não as tivesse, olha não sei
(risos)”.
|
|
P10.
|
Reforço da rede de apoio informal.
Durante a recuperação teve um maior suporte para a
prestação de cuidados da sua sogra por parte da sua
família e dos
vizinhos.
|
Quanto aos desafios sentidos, 50,00% mencionaram desafios na recuperação do
próprio cuidador
e 30,00% identificaram a impossibilidade de deixar a pessoa dependente sozinha, tendo sido
partilhados o sentimento de estar sozinho neste processo, o desgaste da prestação de
cuidados e os
desafios associados aos serviços de apoio ao cuidador:
“Houve momentos em que senti algum
desapoio por parte dos serviços sociais, ou seja, durante, sim
senhora, estava no centro de dia, mas de facto, quando a gente está limitada nas
nossas funções parece
que não há mais ninguém, digamos assim, a gente precisa de uma ajudinha, não há
ninguém” (P1).
“Eu acho que todos os cuidadores deviam ter um psicólogo, é o que eu acho, para
poderem falar de
coisas que não falam com mais ninguém, porque as pessoas nem sequer compreendem,
porque não
passam pelo mesmo, não sabem o que é ser cuidadores”
(P4).
“Eu acho que foram desafios muito grandes, psicológicos, tive muita paciência, era
muito complicado”
(P10).
Quanto ao estado atual de saúde do cuidador, metade dos participantes refere
sentir-se bem (P3, P4,
P6, P8, P10). Os restantes referem problemas de saúde e limitações relacionadas com a sua
doença ou
com o processo de recuperação. No que diz respeito à perceção do futuro do cuidado, a maior
parte
dos participantes prevê que a situação de dependência se agrave (40,00%), outros mostram
receio
com o futuro (20,00%) e ainda se constata a crença de que se o cuidador tiver saúde
continuará a
assegurar a prestação de cuidados (30,00%), por outro lado, P4 e P6 dizem que não pensam
sobre o
futuro. No caso do P10 houve falecimento do familiar que cuidava (10,00%).
“Se eu tiver saúde e tiver pronto, trato
até ao final. Se não tiver, alguma coisa depois tem que se resolver,
não é?”
(P2).
“Eu não sei o que é que vai acontecer, nem quando, eu não posso estar a pensar no
futuro, neste
momento a pensar como é que eu vou cuidar daqui para a frente, o que é que vai
acontecer, porque eu
não sei. Os desafios aparecem e a gente tenta resolver” (P4).
Discussão
O perfil do cuidador informal participante na investigação é do sexo
feminino, tem uma média etária
de aproximadamente 60 anos, é casado e é ativo. Todos os participantes cuidam de familiares
(mãe,
pai, sogra e cônjuge), coabitando com a pessoa cuidada. O perfil corresponde ao perfil de
cuidador
informal identificado em estudos realizados em Portugal11,13,
23,24.
Os resultados revelam que a prestação de cuidados apresenta impactes
multidimensionais na vida dos
cuidadores informais: a nível familiar, pessoal, social, laboral e financeiro. A nível
familiar, metade
dos participantes referem não sentir impacte, sendo referidos nas rotinas e dinâmica
familiar, e nas
relações entre os membros da família, com aumento da conflitualidade associada às
responsabilidades
em cuidar. Já a nível pessoal, todos os cuidadores referem algum tipo de impacte sentido,
reportando a
restrição de autonomia para sair de casa ou realizar atividades, o desgaste, o cansaço, a
dificuldade em
gerir as rotinas diárias e a dificuldade em dormir.
A nível social, os cuidadores referem restrições na sua liberdade e da
família, por exemplo no lazer
ou nas férias. A nível laboral, os ativos mencionam adaptações para promover a conciliação
entre o
trabalho assalariado e a prestação de cuidados informal, designadamente pela flexibilidade
ou redução
nas atividades profissionais e no horário laboral ou o trabalho por conta própria. Uma das
participantes
despediu-se para cuidar da sua mãe, por não conseguir conciliar o cuidado com a vida
profissional,
outra encontra-se com incapacidade temporária para o trabalho. Por último, a nível
financeiro, metade
da amostra refere que as suas despesas familiares aumentaram devido à prestação do cuidado
informal.
A literatura evidencia também esta multidimensionalidade dos impactes sentidos. As famílias
sofrem mudanças na rotina quando iniciam a prestação de cuidados informais13.
13 e verificam-se
conflitos
familiares, sendo mais frequentes entre membros da fratria7. No foro pessoal são assinalados impactes
no cuidador7,18,19, sendo sublinhada a perda de liberdade
para sair de casa e realizar atividades, o
que pode potenciar isolamento social15. Ser cuidador informal está
empiricamente relacionado
com a redução do tempo de lazer, o que se associa com a sobrecarga que os cuidadores
informais
enfrentam25,26.
A conciliação entre o trabalho e o cuidado encerra dificuldades, podendo
potenciar o abandono do
trabalho quando o cuidado é prolongado27,28. Em linha com os resultados, um estudo
em Portugal
indica que 52,50% dos cuidadores estavam inseridos no mercado de trabalho e não referiam
impactes
relevantes na vida laboral, ainda que uma parte manifestasse problemas na justificação de
faltas
e nas baixas médicas, opção pela redução de horário de trabalho, problemas remuneratórios e
em
conciliar a vida profissional com a vida familiar, e situações de burnout11. O apoio dos
sistemas de
proteção social aos cuidadores informais é escasso, mesmo após o reconhecimento do estatuto
do cuidador em Portugal, sobretudo quando se regista um aumento das despesas associadas ao
cuidado27.
Foi analisado o cuidado informal quando o cuidador enfrenta uma situação de
doença ou
incapacidade, designadamente quanto aos impactes e desafios, assim como aos apoios formais e
informais mobilizados e às perspetivas futuras acerca do cuidado.
A doença do cuidador informal representa em si um desafio evidente com
repercussões na prestação
de cuidados, sendo sublinhados pelos participantes o afastamento entre cuidador e a pessoa
cuidada,
o impedimento ou dificuldade em realizar tarefas, assim como o cansaço e a maior necessidade
de descanso. Metade dos cuidadores refere como desafio a sua própria recuperação, seguido
pelo
desafio de não poder deixar a pessoa cuidada sozinha, o desgaste causado pela prestação de
cuidados, os desafios relativos à ativação de serviços de apoio e o sentimento de estar
sozinho no
processo de cuidado. Os impactes e desafios revelam a falta de recursos dos cuidadores para
fazer
face à crise acidental que a doença implica, evidenciando a necessidade de maior suporte.
Neste
sentido, a mobilização de recursos formais como informais constitui-se como crucial. Em
resposta à
situação de doença do cuidador, 90,00% dos participantes reforçaram a sua rede de suporte
informal,
30,00% procuraram novos recursos na rede de suporte informal e 10,00% na rede formal. A
opção
pelo suporte social informal foi evidente.
A literatura refere que é expectável que os cuidadores experienciem altos
níveis de stress quando não
possuem os recursos internos ou externos necessários para fazer face a uma crise como a
doença,
sobretudo se tiverem problemas de saúde pré-existentes29. TÉ salientada a importância de
combinar
mais recursos como o apoio de outros cuidadores, estratégia que pode mitigar alguns dos
impactes
e desafios apontados pela amostra29.
Quando questionados sobre a perceção do futuro do cuidado do seu familiar,
os participantes
referem o previsível agravamento da situação de dependência, seguido pela crença de que se o
cuidador tiver saúde, continuará a assegurar os cuidados. São ainda referidos receios com o
futuro e
evitamentos de pensar o futuro.
Analisando os discursos, identificam-se sentimentos como a esperança,
incerteza e a tristeza,
mencionados também por Guadalupe et al.27. O futuro pode trazer desafios à
prestação de
cuidados informais, tanto pelo agravamento da condição de saúde do familiar dependente, como
pela degradação da saúde do cuidador. A evidência indica que os cuidadores estão em risco de
se
tornarem doentes, pelo que este risco pode ser diminuído através do reforço do suporte
formal
para o cuidado30.
O presente estudo apresenta limitações que devem ser consideradas. Desde logo, enfrentou
dificuldades no recrutamento da amostra, dada a especificidade amostral, apesar de ter
recorrido
à técnica de amostragem não probabilística. Algumas categorias de análise necessitariam de
maior
saturação, designadamente quanto aos impactes laborais e pessoais. O estudo optou pelo
critério
de homogeneidade na experiência dos cuidadores em apresentarem incapacidade temporária e em
estarem impedidos clinicamente de prestarem cuidados, tendo sido excluídas as situações de
saúde
mental. Sugere-se que, em futuras investigações, se integre uma maior diversidade de
situações
de doença e de incapacidade nos cuidadores, analisando as implicações do tempo de
incapacidade
para cuidar e os níveis de incapacidade temporária do cuidador, num estudo com uma amostra
de
maior dimensão e com desenho quantitativo e correlacional para explorar possíveis
associações
entre variáveis.
Conclusões
Os resultados realçam que o cuidado informal acarreta impactes
multidimensionais no cuidador e
na sua família. Destacam-se os impactes a nível pessoal, social e laboral. No foro pessoal e
social são
valorizadas as restrições na autonomia para sair de casa e no lazer, bem como o cansaço ou
desgaste.
A nível laboral, verifica-se que os participantes trabalhadores entrevistados conseguem
conciliar o
cuidado e o trabalho com recurso a adaptações nas atividades e horários de trabalho, ainda
que a
opção pelo cuidador informal signifique a impossibilidade de trabalhar.
A situação de doença e/ou incapacidade do próprio cuidador impacta e desafia
os cuidadores e revela
a necessidade de reforço nos pedidos de suporte social. Foi possível constatar a existência
de alguns
entraves para a utilização de respostas sociais formais ou a combinação com respostas
informais.
Considerando os entraves em ativar apoios formais, exige-se um maior
acompanhamento e
monitorização pelos cuidados de saúde primários e serviços sociais comunitários, sobretudo
em
situações de doença dos cuidadores, pois tendem a sentir-se sozinhos e desapoiados no
processo
de cuidado. O Serviço Social tem um papel relevante junto desta população no sentido de
garantir
direitos e bem-estar, promovendo o suporte social e mitigando os impactes adversos cuidado
informal.
O que acontece quando o cuidador informal adoece? Esta questão fundamental
motivou a presente
investigação. Considerando que os estudos que abordam esta situação específica são escassos
na
literatura científica, o presente trabalho constitui um contributo relevante para o
conhecimento
acumulado e oferece uma base sólida para o desenvolvimento de futuros trabalhos nesta área.
Os cuidadores informais desempenham um papel social muito relevante. Mas os
cuidadores estão
sujeitos a vivenciar situações de doença ou incapacidade que podem impedi-los de cuidar.
Face a
esta vicissitude na sua vida, onde recorrem e com quem podem contar? Os resultados apontam
claramente que podem contar com a sua rede de suporte social informal, sobretudo com os
laços
familiares, o que enfatiza a dimensão familista dos cuidados em Portugal8. É também
evidente nos
discursos que assegurar cuidados informais continuará a ser uma das prioridades dos
cuidadores,
enquanto for possível assumir a responsabilidade de cuidar e houver saúde.
A presente investigação enfatiza a necessidade de uma intervenção que
integre cuidados de saúde
e cuidados sociais de proximidade, garantindo suporte efetivo, sendo fundamental o reforço
das
políticas públicas direcionadas para cuidar de quem cuida. Recomenda-se a implementação de
programas integrados de apoio ao cuidador informal, com especial foco em cuidadores com
risco
de adoecer ou em situação de doença, e que sejam repensadas e flexibilizadas as respostas
sociais
comunitárias para a população que necessita de cuidados.
Conflito de interesse: Os autores declaram não ter conflito de interesses
em nenhum aspeto para a
publicação do artigo.
Financiamento: O estudo não teve financiamento.
Contribuições dos autores: ICD: Conceitualização;
Organização de Dados; Pesquisa; Metodologia;
Captação de Recursos; Validação; Visualização; Redação – Elaboração do Rascunho Original.
SG:
Conceitualização; Organização de Dados; Análise Formal; Pesquisa; Metodologia; Supervisão;
Validação; Visualização; Redação – Elaboração do Rascunho Original; Redação – Revisão e
Edição.
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