Rev Cuid. 2025; 16(2): 4290

https://doi.org/10.15649/cuidarte.4290

REVIEW ARTICLE

Fatores cardiometabólicos relacionados a condições pós Covid-19: scoping review

Cardiometabolic factors related to post-COVID-19 conditions: a scoping review

Factores cardiometabólicos relacionados con afecciones post-COVID-19: revisión exhaustiva

Universidade Federal do Ceará – UFC. Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail: enfjcncruz@gmail.com João Cruz Neto
Universidade Federal do Ceará – UFC. Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail: viniciusolivindo@gmail.com Carlos Vinícius Fiuza Olivindo
Universidade Federal da Paraíba - UFPB. João Pessoal, Paraíba, Brasil. E-mail: arthurguimaraes60@gmail.com José Arthur Guimarães dos Santos
Universidade Federal do Ceará – UFC. Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail: kadsonp64@gmail.com Correspondence Author Kadson Araujo da Silva
Universidade Estadual Paulista - UNESP. São Paulo, Brasil. E-mail: romulojr_99@hotmail.com Romulo de Oliveira Sales Junior

Highlights


 

Como citar este artigo: Cruz Neto, João; Olivindo, Vinícius Fiuza Carlos; Santos, José Arthur Guimarães dos; Silva, Kadson Araujo da; Junior, Romulo de Oliveira Sales. Fatores cardiometabólicos relacionados a condições pós Covid-19: scoping review. Revista Cuidarte. 2025;16(2):e4290. https://doi.org/10.15649/cuidarte.4920

Recebido: 02 de agosto de 2024
Aceito:
15 de abril de 2025
Publicado:
24 de julho de 2025

CreativeCommons 

E-ISSN: 2346-3414


Resumo

Introdução: A síndrome pós-COVID é uma patologia que envolve múltiplas sequelas. Torna-se relevante a identificação dos fatores de risco cardiometabólicos como forma de prevenir complicações do quadro clínico. Objetivo: Mapear as evidências científicas relacionadas aos fatores cardiometabólicos em condições pós-Covid-19 longa. Materiais e Métodos: Revisão de escopo com a questão norteadora: Quais as evidências científicas que relacionam os fatores cardiometabólicos a pacientes com a síndrome pós-Covid-19 longa? As fontes de informação utilizadas foram seis bases de dados via portal de periódicos da CAPES. Para a literatura cinzenta empregou-se catálogo de teses e dissertações da CAPES, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, Who Library Database e os repositórios medRxiv e OpenGrey. Foram utilizados os descritores: adult, heart disease risk factors, Syndrome, SARS-CoV-2 e Covid-19 cruzados por meio dos operadores booleanos AND e OR. Resultados: Foram incluídos 14 estudos. Os fatores cardiometabólicos encontrados foram: níveis anormais de triglicerídeos, hemoglobina glicada, ferritina, processos inflamatórios, diminuição de plaquetas, fosfolipídios e células endoteliais, estresse oxidativo, maiores concentrações de monossacarídeos e redução de polissacarídeos, aumento de LDL, ALT, AST e bilirrubina, com redução de TFG. Discussão: Os pacientes com COVID de longa duração relatam sintomas persistentes e debilitantes que afetam a recuperação, qualidade de vida, atividades econômicas e sociais. Além do aumento da frequência cardíaca em repouso, taquicardia, palpitações, hipotensão, síncope, taquicardia ortostática, angina e ataque cardíaco. Conclusões: Os fatores cardiometabólicos expõem a vulnerabilidade dos indivíduos acometidos pela Covid-19 longa, assim, são necessárias estratégias que reduzam o impacto inflamatório sistêmico da doença e suas consequências clínicas.

Palavras-Chave: Adulto; COVID-19; Síndrome; Fatores de Risco Cardiometabólico.


Abstract

Introduction: Post-COVID syndrome is a pathology that involves multiple sequelae. It is important to identify cardiometabolic risk factors as a way of preventing complications. Objective: To map the scientific evidence related to cardiometabolic factors in long post-COVID-19 conditions. Materials and Methods: Scoping review with the guiding question: What scientific evidence relates cardiometabolic factors to patients with long post-Covid-19 syndrome? The sources of information used were six databases via the CAPES journal portal. For the gray literature, we used the CAPES catalog of theses and dissertations, the Brazilian Digital Library of Theses and Dissertations, the Who Library Database and the medRxiv and OpenGrey repositories. The following descriptors were used: Adult, heart disease risk factors, Syndrome, SARS-CoV-2 and Covid 19 crossed using the Boolean operators AND and OR. Results: 14 studies were included. The cardiometabolic factors found were: abnormal levels of triglycerides, glycated hemoglobin, ferritin, inflammatory processes, decreased platelets, phospholipids and endothelial cells, oxidative stress, higher concentrations of monosaccharides and reduced polysaccharides, increased LDL, ALT, AST and bilirubin, with reduced GFR. Discussion: Patients with long-term COVID report persistent and debilitating symptoms that affect recovery, quality of life, economic and social activities. In addition to increased resting heart rate, tachycardia, palpitations, hypotension, syncope, orthostatic tachycardia, angina and heart attack. Conclusions: Cardiometabolic factors expose the vulnerability of individuals affected by long Covid-19, so strategies are needed to reduce the systemic inflammatory impact of the disease and its clinical consequences.

Keywords: Adult; COVID-19; Syndrome; Cardiometabolic Risk Factors.


Resumen

Introducción: El síndrome post-COVID es una patología que conlleva múltiples secuelas. Es importante identificar los factores de riesgo cardiometabólicos para prevenir las complicaciones de la condición clínica. Objetivo: Mapear la evidencia científica relacionada con los factores cardiometabólicos en afecciones de larga duración post-COVID-19. Materiales y Métodos: Revisión exploratoria con la pregunta guía: ¿Qué evidencia científica relaciona los factores cardiometabólicos con los pacientes con síndrome post-COVID-19 de larga duración? Las fuentes de información utilizadas fueron seis bases de datos del portal de revistas CAPES. Para la literatura gris, se utilizaron el catálogo de tesis y disertaciones de CAPES, la Biblioteca Digital Brasileña de Tesis y Disertaciones, la base de datos de la Biblioteca de la OMS y los repositorios medRxiv y OpenGrey. Los descriptores utilizados fueron: adulto, factores de riesgo de cardiopatía, Síndrome, SARS-CoV-2 y Covid-19, cruzados mediante los operadores booleanos AND y OR. Resultados: Se incluyeron catorce estudios. Los factores cardiometabólicos encontrados fueron: niveles anormales de triglicéridos, hemoglobina glucosilada, ferritina, procesos inflamatorios, disminución de plaquetas, fosfolípidos y células endoteliales, estrés oxidativo, mayores concentraciones de monosacáridos y reducción de polisacáridos, aumento de LDL, ALT, AST y bilirrubina, con reducción de GFR. Discusión: Los pacientes con COVID de larga duración reportan síntomas persistentes y debilitantes que afectan la recuperación, calidad de vida, actividades económicas y sociales. Además de aumento de la frecuencia cardíaca en reposo, taquicardia, palpitaciones, hipotensión, síncope, taquicardia ortostática, angina e infarto. Conclusiones: Los factores cardiometabólicos exponen la vulnerabilidad de los individuos afectados por COVID-19 de larga duración, por lo que se necesitan estrategias para reducir el impacto inflamatorio sistémico de la enfermedad y sus consecuencias clínicas.

Palabras Clave: Adulto; COVID-19; Síndrome; Factores de Riesgo Cardiometabólico.


 

Introdução

Os fatores de risco constituem um grupo de implicações clínicas que podem levar ao adoecimento. Neste sentido, os fatores cardiometabólicos relacionam-se a um pior prognóstico clínico em doenças de origem circulatória, respiratória ou metabólica, com implicações clínicas relacionadas a hipercitocinemia, inflamação, síndrome respiratória aguda grave, adiposidade abdominal, doenças cardiovasculares, hipercoagulabilidade e desequilíbrios hidroeletrolíticos1,2.

As respostas imunes abaixo do esperado em pacientes com síndrome metabólica acontecem em decorrência do ambiente pró-inflamatório, gerando a hiperinflamação, disfunção microvascular e eventos cardiovasculares. Em resultado a esse fato, os pacientes portadores de comorbidades cardiometabólicas possuem maior risco de desfecho desfavorável3.

Apesar da infecção por Covid-19 ser diretamente relacionada a disfunções respiratórias, outras complicações foram elucidadas, dentre elas estão as disfunções no sistema cardiovascular4. Pacientes infectados pelo SARS-CoV-2 evoluíram com complicações cardíacas, algumas dessas situações foram o agravamento de patologias preexistentes e outras foram desenvolvidas após contato com o vírus. Além disso, foi perceptível que homens mais velhos, tabagistas e portadores de comorbidades como Hipertensão Arterial Sistêmica, Diabetes Mellitus e outras doenças cardíacas, fazem parte de um grupo mais suscetíveis a resultados adversos5.

As “condições pós-covid” podem ser definidas como os quadros clínicos desenvolvidos ou em desenvolvimento após infecção da COVID-19 que implicam na piora do estado de saúde e que não possam ser atribuídas a outras causas6. Ademais, é recomendada a utilização dos códigos da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde da 10ª Revisão (CID-10) como forma de registrar as condições pós-covid, sendo indicado o código U09.9 com a descrição de condição de saúde posterior à covid-19 não especificada7.

Diferentes fases do COVID-19 são observadas: COVID-19 agudo (sequelas por até 4 semanas), sintomas agudos pós COVID: (4 a 12 semanas) e síndrome pós-COVID-19 longa (ocorrem durante ou após uma infecção consistente com COVID-19, contínua por mais de 12 até 24 semanas e não são explicados por um diagnóstico alternativo), sintomas persistentes Pós-Covid (superior a 24 semanas)8,9.

A síndrome pós-COVID é uma patologia, que envolve sequelas físicas, mentais e cognitivas persistentes após o adoecimento entre três a seis meses após o início do primeiro sintoma. Pacientes que não eram mais positivos para SARS-CoV-2 e receberam alta do hospital, assim como pacientes ambulatoriais, também podem desenvolver COVID longa10.

Diante disso, torna-se importante a identificação dos fatores de risco cardiometabólicos como forma de prevenir complicações do quadro clínico. Para tanto, os profissionais de saúde devem atentar-se aos sinais específicos das doenças cardíacas, vasculares e metabólicas, embora esse ponto ainda seja um déficit na assistência em saúde11.

Esta revisão torna-se necessária, tendo em vista a relevância do tema, abrangência e necessidade de identificar fatores cardiometabólicos para elucidar práticas assistenciais em saúde nos diferentes níveis de atenção, além de promover a prevenção de agravos e promoção de cuidados.

Após busca realizada na Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Open Science Framework, JBI Evidence Synthesis, Cochrane Database of Systematic Reviews não foram encontradas revisões em andamento ou realizadas sobre fatores e condições associadas ao pós-covid-19 longa. O objetivo desta revisão é mapear as evidências científicas relacionadas aos fatores cardiometabólicos em condições pós-Covid-19 longa.

 

Materiais e Métodos

Tipo de estudo

Trata-se de uma revisão de escopo que foi desenvolvida de acordo com o manual de sínteses de evidências publicado pelo JBI12 e orientada pelas diretrizes metodológicas propostas pela extensão do PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses) para revisões de escopo, o PRISMA-ScR13. O estudo foi cadastrado na plataforma Open Science Framework. Os dados do estudo estão disponíveis para acesso gratuito na plataforma Mendeley Data14.

Etapas do estudo

A revisão foi desenvolvida mediante nove etapas sequenciais, a saber: (1) Determinar objetivo e pergunta; (2) Formular critérios de inclusão; (3) Direcionar o planejamento para pesquisa, seleção, extração de dados e apresentação de evidências; (4) mapeamento dos dados; (5) Seleção da evidência;(6) Extração da evidência; (7) Análise da evidência; (8) Apresentação dos resultados; e (9) Aplicar relação entre objetivo, conclusão e implicações das descobertas12.

Questão de pesquisa

A questão de pesquisa foi elaborada pela estratégia PCC, sendo “P” a população - pacientes adultos com síndrome pós-COVID-19 longa”, “C” o conceito - fatores cardiometabólicos pós-Covid-19 longa, e o segundo “C” o contexto - Diversos cenários de saúde. Assim foi estabelecida a seguinte questão de pesquisa norteadora: Quais as evidências cientificas relacionam os fatores cardiometabólicos a pacientes com a síndrome pós-Covid-19 longa?

Critérios de elegibilidade

Foram incluídos estudos com pacientes acima de 18 anos com síndrome pós-COVID-19 longa e alguma doença cardiometabólica. Foram excluídos os estudos que, em sua população, houve agravamento do quadro de saúde não relacionado a Covid-19 ou a interação com doença cardiometabólicas.

O estudo incluiu pessoas com doenças cardiometabólicas ou que desenvolveram após a infecção com Covid-19. Entende-se fatores cardiometabólicos como estresse oxidativo, disfunção endotelial, resistência insulínica, aterosclerose, aumento de gordura corporal e alterações do microbioma influenciados ou não pela Covid-19.

Incluiu-se estudos nos diversos cenários em saúde (ambulatorial, domiciliar, hospitalar) sem limitações por localização geográfica ou fatores sociais, étnicos ou gênero.

Foram incluídos estudos com diferentes delineamentos metodológicos primários e sem recorte temporal. Excluídos estudos editoriais, revisão narrativa, resumos em anais, projeto e protocolos de pesquisa. Os estudos que responderam à questão norteadora desta revisão, foram lidos na íntegra e as referências analisadas em busca de estudos adicionais para inserção potencial. Os estudos que não se relacionaram aos objetivos da revisão foram excluídos, com base na leitura do título e resumo, temática não associada, disponibilidade na íntegra após ampla busca, análise de estudos repetidos, além de leitura e avaliação dos achados quanto ao conteúdo não pertinente.

Fontes de informação

Fontes de informação: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS); Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE) via PubMed; Web of Science (WoS), Embase via Elsevier; EBSCO (FSTA - Food Science and Technology) e SCOPUS via portal de periódicos da CAPES. Para a literatura cinzenta foi empregado catálogo de teses e dissertações da CAPES, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), Who Library Database e os repositórios medRxiv e OpenGrey. A busca pelos estudos foi realizada entre março e junho de 2023 de forma pareada.

Estratégias de Busca

A estratégia de busca dos artigos foi realizada a partir dos elementos do PCC com termos utilizados dos descritores em Ciências da Saúde (DeCS) ou Medical Subject Headings (MeSH), junto aos operadores booleanos AND e OR. Foi feita a seleção da melhor estratégia de busca de acordo com os testes realizados no portal da PubMed, considerando a estratégia que resultou em um maior número de estudos relativos à temática proposta pela revisão.

 

Tabela 1. Estratégia de pesquisa, 2023

 

Seleção dos Estudos

Para a seleção das evidências foi utilizado modelo adaptado conforme o JBI12. Os resultados obtidos com a busca foram exportados para o gerenciador de referência Rayyan desenvolvido pelo Qatar Computing Research Institute (QCRI)15, a seleção dos estudos ocorreu a partir de dois pesquisadores e de forma independente; ressalta-se que um terceiro pesquisador decidiu conflitos na ausência de consenso. As duplicadas foram consideradas apenas uma vez com o auxílio do Software Mendeley.

Extração dos Dados

A extração se deu por meio da triagem do texto completo dos artigos incluídos: os dados dos artigos foram extraídos pela leitura do texto completo e organizados em uma planilha que foi construída com base nas informações bibliográficas, país e ano de publicação, tipo de método adotado, assim como, os resultados relativos à questão de pesquisa elaborada com base no PCC proposto para essa revisão.

Apresentação do Resultados

Os resultados foram mostrados no PRISMA16 e mapeados em formas de quadros/diagramas, Figura 1. Tais resultados foram acompanhados com a elaboração de uma síntese narrativa dos dados, que foi construída de acordo com categorias temáticas que apareceram com a leitura dos textos selecionados.

 

Figura 1. Busca e seleção dos estudos incluídos na revisão

 

Resultados

O fluxo quanto ao processo de inclusão, detendo-se aos critérios de elegibilidade preestabelecidos dos estudos captados para essa revisão, estão dispostos na Figura 1. Foram incluídos 14 estudos, de 9 países distintos, sendo: Inglaterra (n=3, 21,42%), Brasil e Estados Unidos (n=2, 14,28%, respectivamente), Rússia, Espanha, Alemanha, Canadá, Áustria, Índia e Polônia com (n=1, respectivamente).

Os delineamentos dos estudos foram: coorte (n=6, 42,85%), observacionais, revisões sistemáticas e descritivo (n=2, 14,28%, respectivamente), documental e ensaio clínico (n=1, 7,14%, respectivamente). A amostra de participantes entre as pesquisas variou de 32 a 1357518 pessoas, com média de 111 para estudos descritivos, 567 em estudos observacionais e 3331 em estudos de coorte. O tempo de acompanhamento dos estudos variou de 12 a 52 meses. A manifestação de sintomas entre os fatores cardiometabólicos variou de 13 semanas em estudos clínicos e documentais, 46 semanas nos estudos observacionais, 65 semanas em estudos descritivos e 120 semanas em estudos de coorte.

Implicações metabólicas

Os estudos apresentaram implicações metabólicas na síndrome pós-covid-19 associadas à obesidade com o aumento da gordura corporal, predispondo a doenças infecciosas, evolução da gravidade patológica e doenças cardiometabólicas17-21, conduzindo a sintomas como fraqueza, intolerância ao exercício, palpitações, distúrbios de memória e concentração, dor no peito e artralgia18. Níveis anormais de triglicerídeos, hemoglobina glicada17,18 e ferritina que podem elevar a taxa glicêmica e induzir a resistência insulínica17 sendo responsáveis por casos graves de COVID-19 prolongado17,18. O risco de desenvolver diabetes mellitus permanece elevado22,23 após 12 semanas de alta24.

Implicações circulatórias

Há também um aumento dos processos inflamatórios18, levando à lesão endotelial23,25-27, incluindo hipertensão23 lesão miocárdica, miocardite, arritmias, síndrome coronariana aguda, tromboembolismo venoso e insuficiência cardíaca entre 60% a 78% dos pacientes nos meses seguintes à infecção por COVID-1927-28, lesão no miocárdio, função ventricular anormal, edema, doença coronariana, doença cardíaca isquêmica, anomalia valvar, derrame pericárdico, fibrilação atrial e disfunção diastólica27.

Implicações respiratórias

Notou-se a presença de distúrbios do sistema cardiovascular residuais após 6 a 12 semanas como fadiga, dispneia, cefaleia, tosse, disgeusia, febre e dispnéia21,28,29 mialgia, rinite e febre devido a infecções respiratórias21,23 tromboembolismo pulmonar, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral, doença coronariana24,28-29, embolia pulmonar, arritmias auriculares e tromboses venosas22,24, infarto do miocárdio23-24. O estresse oxidativo leva a altos índices de ácidos graxos, MUFA e baixo teor PUFA no sangue associados a riscos cardiovasculares, doenças metabólicas e infecções30. A relação entre as implicações, fatores e desfechos são apresentadas na Figura 2 adaptada.

Outros danos ao tecido cardíaco incluem: diminuição plaquetas, fosfolipídios e células endoteliais, e podem ativar neutrófilos ou promover trombose com subsequente dano tecidual ou fibrose no coração25. Sarcopenia presente19. As alterações cardiometabólicas promovem maiores concentrações de monossacarídeos saturados, menor concentração de polissacarídeos e uma relação entre os sacarídeos mais baixa30, Aumento de LDL, ALT, AST e bilirrubina, com redução de TFG26 e resistência glicêmica observada pelo índice de TyG20. A cirrose, degeneração macular, doença renal crônica, lúpus e artrite também podem ser desfechos da síndrome associados à potencialização de distúrbios metabólicos23.

Os estudos demostram que os pacientes com COVID-19 que foram hospitalizados ou necessitaram de cuidados na UTI tiveram um risco maior de experimentar e ser hospitalizados por eventos cardíacos pós-COVID-1925. Consequentemente, na duração grave da COVID-19, a alteração no índice de massa corpórea está independentemente associada ao risco em indivíduos saudáveis18. Além disso, os perfis metabólicos dos casos da comunidade com COVID-19 assintomática foram notavelmente diferentes daqueles com doenças mais longas, exibindo um fenótipo de lipoproteína aterogênica, e essa diferença foi aparente independentemente de a doença ter sido causada pela COVID-19 ou por outro fenômeno agudo30. Por fim, houve diversas manifestações de complicações cardíacas e muitas podem durar meses e até anos27.

 

Figura 2. Desfechos e implicações das síndromes pós-covid-19

Nota: Adaptado de Ely et al.31

 

Discussão

As manifestações clínicas da infecção por COVID acometem da mesma forma pessoas saudáveis e com doença cardiometabólica (DCM), contudo, os marcadores e a progressão da doença tendem a evoluir para casos graves quando associado a DCM com maior chance de ter o "COVID prolongado”32. Nesta pesquisa identificou-se os elementos responsáveis pela efusão da piora metabólica após a infecção por COVID-19 e que influenciam no surgimento de novas comorbidades.

A obesidade é um fator de risco para infecções associadas aos casos graves do pós-COVID-19 e outras infecções respiratórias33. No estudo em tela observou-se associação entre os marcadores da gordura corporal com índices glicêmicos e lipídicos que evoluem para condições pós-covid. Existem dados que a disfunção do tecido adiposo e a hiperglicemia desempenham um papel significativo no curso clínico da doença, porém ainda há lacunas em relação à etiologia, epidemiologia e tratamento da síndrome pós-covid34.

Como alternativa às agressões teciduais decorrentes da influência cardiometabólica, o uso da dieta cetogênica de menor caloria pode ser considerada em pacientes com obesidade severa para uma perda de peso rápida e durante a reabilitação. Já a do tipo rica em gorduras podem exercer efeito anti-inflamatório e podem ser úteis para reduzir a replicação viral33.

Além disso, estudos mostraram que pacientes com COVID-19 sofrem de síndrome de fadiga pós-COVID-19, que se manifesta principalmente como fadiga crônica, distúrbios do sono, comprometimento cognitivo, dores musculares e sintomas depressivos35-37. Esses sintomas estão relacionados a um aumento da resistência ao escoamento do líquido cefalorraquidiano (LCR), que leva à congestão do sistema linfático e promove o acúmulo de substâncias tóxicas no sistema nervoso37.

As taxas elevadas dos marcadores de citocinas podem ser responsáveis pela fibrose pulmonar e, consequentemente, COVID-19 prolongada31. Essa chuva de citocinas afeta órgãos importantes como o pâncreas. A células β dos tecidos pancreáticos podem ser atacadas de forma adversa e desenvolvendo DM por conta da Covid-1917.

Os componentes da síndrome metabólica podem estimular a desregulação do Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona, modulada pela ECA-2, levando ao aumento da presença de Angiotensina II. A ligação da angiotensina II aos receptores tipo I da angiotensina II pode ser um estímulo para insultos cardiovasculares, como disfunção endotelial, trombose e inflamação crônica21. O estado hiperinflamatório e a função cardiorrespiratória alterada resultam em fadiga excessiva ou mal-estar pós-esforço que está sendo relatado em pacientes com COVID-longo.

O uso potencial de oxigênio de alto fluxo e CPAP são alternativas viáveis a pacientes com casos graves de sintomas residuais 6 a 12 semanas após a alta decorrente de hipercitocinemia28. Hipóxia também foi constatado, provocando exacerbação do COVID-19 pelos distúrbios lipídios e glicose34,38. Estes indicadores confirmam a necessidade de explorar melhor os efeitos da Covid longa. Além dos sintomas inespecíficos de infecção (fadiga, dor de cabeça, dores nas articulações, mialgia, diminuição do apetite e febre), manifestações respiratórias – taquipneia, dor torácica e dispneia, eram frequentes em pacientes ambulatoriais com COVID-19 agudo. Em contraste, fadiga dos participantes com COVID-19 longa, cansaço diurno, hiposmia/anosmia, alteração do paladar e taquipneia foram substancialmente retardadas, déficits de concentração e memória representaram manifestações predominantes de COVID-19 longo21.

Destaca-se que os pacientes com COVID-19 de longa duração relatam sintomas persistentes e debilitantes que afetam a recuperação, a qualidade de vida e as atividades econômicas e sociais mais amplas. As experiências dos pacientes são amplas e há necessidade de abordagens longitudinais para determinar a prevalência e a flutuação da exacerbação dos sintomas39. Contudo, os dados aqui apresentados corroboram para uma clara associação entre doença cardiovascular e COVID-19. A lesão cardíaca parece ser comum em pacientes com COVID-19 grave, sendo que os danos cardiovasculares a longo prazo permanecem obscuros, mas sabe-se que podem levar a efeitos crônicos40.

A Permanência do vírus nos órgãos como: sangue (inflamação perivascular), intestino (alterações na microbiota) e tecido adiposo (aumenta de resposta inflamatória em pacientes obesos e alteração na patologia da diabetes mellitus) elevam as complicações34. No estudo em tela observa-se diversas implicações no sistema circulatório. Ocorre inflamação cardíaca, aumento da pressão arterial, fadiga crônica grave, palpitações, dor torácica, falta de ar e disautonomia40. Além de lesão miocárdica, miocardite, arritmias, síndrome coronariana aguda e tromboembolismo venoso nos meses seguintes à infecção por COVID-19, relata-se sintomas cardíacos como dor torácica atípica, palpitações e dispneia e exaustão39.

Ocorrem consequências cardiovasculares como aumento da frequência cardíaca em repouso, taquicardia, palpitações, hipotensão, síncope, rubor descontínuo, taquicardia ortostática, hipertensão recém-diagnosticada, angina de peito e ataque cardíaco. Além disso, aumenta o risco de desenvolver diabetes mellitus31. A COVID prolongada pode acometer todos os pacientes com COVID-19 com gravidades, principalmente com doenças cardiometabólicas, podendo ter um pior desfecho. Pode haver vários sintomas clínicos e manifestações, sendo muitos deles inespecíficos e com uma epidemiologia incerta.

Outras apresentações com implicações indiretas nos padrões cardiometabólicos também foram encontradas. Apresentam-se distúrbios mentais decorrentes dos transtornos de ansiedade, transtornos de humor, distúrbios musculoesqueléticos, condições neurológicas (distúrbio do sistema nervoso) e distúrbios respiratórios (asma)22,23. Há também a disfunção muscular causando fraqueza e fadiga levando à perda de massa muscular, um processo conhecido como sarcopenia que implica na desnutrição e na atividade física limitada38.

No tocante às variantes da COVID-19, a presença prolongada do RNA da SARS-CoV-230 os estudos denotam que a Delta provocou elevados quadros de ansiedade, insônia, déficit cognitivo, epilepsia ou convulsões e acidentes vasculares cerebrais isquêmicos, já a Omicron, risco acrescido de demência, perturbações do humor e perturbações dos nervos e dos plexos22,23. Além disso, pode gerar doença renal crônica, lúpus e artrite23.

Portanto, recomenda-se que os sistemas de saúde estejam preparados para receber um número crescente de pacientes acometidos por condições relacionadas à EM, dada a provável influência da longa COVID. Em pessoas com doenças cardiometabólicas prévias evolui-se para fraqueza e cansaço elevados, além da infecção por COVID-19 ser ainda mais provável que ocorra a "COVID prolongada"40.

Os achados ressaltam a importância contínua de impedir que a infecção por SARS-CoV-2 progrida para uma doença grave para reduzir possíveis complicações cardiovasculares a longo prazo. Assim, reforça-se que a vacinação é a única maneira de prevenir COVID longo31.

Como limitações, observa-se a escassez de estudos que envolvem as implicações de fatores cardiometabólicos pós-covid-19 longa na saúde. As incertezas decorrentes do avanço no quadro clínico levam à necessidade de revisões periódicas ao tema. O processo de busca e seleção dos estudos pode ter omitido estudos potenciais da amostra que não continham expressões no título ou resumo do conteúdo que respondesse à pergunta de pesquisa.

 

Conclusão

Os estudos revelam a presença de marcadores cardiometabólicos em condições pós-covid-19, o que releva a importância de reunir este escopo do conhecimento como ferramenta para verificar as implicações causadas pela infecção da doença a curto, médio e longo prazo. O ineditismo do tema revela fragilidades na condução de pesquisas com foco específico ao que foi abordado e geram, ainda, poucas evidências no assunto. Em síntese, são apresentadas considerações em relação à alteração metabólica envolvendo triglicérides, resistência insulínica, obesidade central resultando em tromboembolismo, arritmias, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral e doença coronariana.

Os dados sintetizados apontam para o desafio na mudança de padrões terapêuticos diagnósticos e prognósticos relacionados à Covid longa, em especial, às suas consequências clínicas. Novos estudos devem avançar no conhecimento aqui sintetizado com desdobramentos da evolução do quadro clínico de pessoas com a Covid persistente.

Conflitos de Interesse: Os autores não declaram conflitos de interesse.

Financiamento: A pesquisa recebeu o financiamiento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Agradecimento: Sociedade Brasileira de Pesquisa e Inovação Saúde - SOBRAPIS.

 

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